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Postagens

3 Dias

Eu poderia dizer que era o seu cheiro que ainda continuava na minha melhor toalha. E de fato era. Mas não era só um cheiro seu qualquer. Não era o seu pescoço que continuava a ressoar nas minhas narinas enquanto eu usava uma toalha que simplesmente estava disponível. Não era do perfume que você passava no pulso que vinha o tapa na minha cara da sua ausência. Era a sua buceta que ainda estava ali no meu banheiro. O mesmo cheiro de sexo que me acompanhava no bigode e nos dedos. Que eu lavava quase que com cuidado para não tirar. Para manter a lembrança olfativa de você deitada com as pernas abertas para mim. Se retorcendo junto com a minha língua. Segurando o meu lençol como a corda salvadora do abismo.
Sem conseguir me secar por medo de te perder, por medo de confundir a maciez da minha melhor toalha com a maciez da sua pele – nenhuma toalha jamais chegaria aos pés da sua pele – sai do banheiro desapontado em direção a minha cama vazia. Para rodar na cama que você dormiu. No santo sudár…
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Deserto

Correlação e Causalidade

Eu poderia de fato elencar 50 motivos de por que você. Eu poderia escrever uma tese sobre isso. Apresentar na frente de uma banca, que ia ficar tão emocionada com a qualidade do trabalho que eles iam me aprovar magna cum laude – ou qualquer coisa assim – em meio a abraços emocionados e lágrimas discretas. Eu poderia fazer um filme com um elenco famoso que ia fazer tudo de graça pela qualidade do roteiro. Ganhar prêmios em festivais de filme independentes e ser a surpresa do Oscar.
Eu poderiam mudar para a montanha e ser o ermitão dos 50 motivos de por que você. E as pessoas iam escalar a montanha para me ouvir falar. Com a barba chegando na cintura, eu ficaria sentado de pernas cruzadas pensando em perguntas sem respostas e dando conselhos tautológicos para testar a sabedoria dos peregrinos que se arriscassem.
E ainda assim, isso não ia mudar nada. Nenhum dos 50 motivos de por que você envolve a resposta de por que eu. Quantos mais motivos de por que você, menos motivos existem para que…

Game Over

Eu perdi, né? No fundo eu já sabia. Sempre soube. Fui idiota de achar o contrário. Mas até aí,quem nunca foi idiota. Quem nunca se entregou a uma promessa vazia. Mesmo sabendo da imensidão do vácuo da promessa. Só porque ela soava tão bonita no começo. Só porque ela teria sido tão bonita se tivesse se realizado. Os comunistas todos sofreram disso. Os anarquistas. O próprio Adam Smith. Sério, lê o cara. Um filho da puta utópico como todos nós. Sonhadores se fodem. Porque acreditam nos sonhos, contra todas as probabilidades. E essa coisa de lutar... pura bobagem. Puro nonsense. Um nonsense lindo, é verdade. Lindo como um sketch do monthy python. Lindo como um quadro do Dalí. Lindo como um móbile do Calder. Lindo. Inútil. Mas lindo.

A sorte do clichê tranquilo

- Ai, eu queria a sorte de um amor tranquilo.
Ela disse isso olhando para o alto. Como se pedindo para alguém além dela. Na mesa, a garrafa de cerveja soltava uma leve névoa e molhava a madeira. A música era do final dos anos 60. A luz, baixa. O bar estava meio vazio, com só mais 3 mesas ocupadas.
Na minha cabeça, eu pensava: eu quero bem mais que isso. Eu quero a angústia de um amor mais forte que eu. Eu quero perder o emprego, perder o chão. Eu quero encarar o asfalto da beirada do vigésimo sexto andar. Eu quero dar vexame bêbado no bar. Eu quero dormir de exaustão depois de rolar na cama desesperado por ela estar vazia. Eu quero que meus amigos façam uma intervenção. Eu quero me mudar com ela. Eu quero passar dias com um sorriso bobo na cara enquanto parece que tudo se desmorona em volta de mim. Porque entre uma citação batida e a insensatez, eu prefiro estar errado. Entre a maturidade e a dor, eu prefiro ser um Peter Pan solitário. Entre a sua sobriedade e a minha bobeira, eu prefir…

Pulp

A janela pisca azul na parte debaixo da tela do computador, indicando uma mensagem e uma remetente. Mesmo antes de lida, aquela mensagem não faz sentido, apenas transporta ele para uma noite três anos antes.
Naquela noite, luzes piscavam no chão, no teto e nas paredes. Rock ecoava na pista de dança acolchoada como a cela de um manicômio. Ele encostava na bancada do dj com um copo de vodka, alguns amigos e muita tontura. Um deles comenta sobre uma garota que dançava perto deles. "Linda, né?", o amigo fala enquanto tenta ser discreto. Pela primeira vez ele olha para ela. Bonita, mas não o suficiente para declarar um "linda" tão empolgado. Tenta ser educado na resposta, mas parece que a falta de empolgação só deixa o amigo mais animado em defender a beleza da desconhecida. Só resta a ele fazer seu trabalho de wingman: o amigo fala com ela, ele fala com o amigo dela. "Escuta, ele sabe que não tem chance nenhuma com minha amiga, né?".
3 anos depois, era o nome …