sexta-feira, 29 de maio de 2015

Oportunidade


Criando diálogos imaginários para tentar lidar com a frustação de não conseguir ter os diálogos reais. Sofrendo com a falta de oportunidade, assunto, coragem. Aleijado por um senso de rídiculo, insignificância, babaquice. Cuspindo pelos dedos a água das palavras engasgadas, dos desejos desenganados pela realidade. Lembrando da pose, de tentar parecer legal e desencanado com o peito arfando em uma angústia inexplicável. Controlando o levo tremor nas mãos para levar o cigarro à boca. É a saliva que não vem, o sentimento que não passa, a eventual migalha que de repente joga você em uma conversa de verdade que você nunca achou que existiria. E de todas as coisas bonitas que você imaginou, o assunto vai para o fato de você nunca ter provado leite Ninho. 

Leite. 

Ninho.

quarta-feira, 15 de abril de 2015

Parágrafos - parte 1

O que eu faço com as tatuagens do seu braço se eu sinto falta delas em todos os braços que me abraçam. Como se todo mundo devesse nascer com elas. Suas linhas me assombram muito mais do que você jamais soube.

Eu nunca prestei atenção em mãos até a sua. Pode parecer raso, mas seus dedos me parecem que iam ficar ótimos em volta do meu pau.

A Elle Fanning tem um grande defeito: ela é dois anos mais nova que você. Mas, sinceramente, preferia você desfilando no meu quarto. Sem vestidos, no caso. Lingerie e um sorriso de meia boca. Com uma virada que deixa aquele olhar de “você não vem?”.

Se ele te fizer gozar até você pedir arrego, como era comigo, eu juro que não encho mais o saco.

Você jurou que não ia sair mais comigo por um motivo tão estúpido que parece ser por outro. E sabemos muito bem qual é o outro: você sabe que meu pau e a sua buceta foram feitas um para a outra muito mais do que eu fui feito para você.


A gente até pode brincar de sermos amigos. Mas nada nunca vai tirar da minha cabeça que você é a mulher da minha vida. Nem o pior sexo da minha vida. Até porque isso já sabemos.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

Presença

I

Ele acordou sem motivo aparente. Depois que você acorda, nem sempre dá para saber porque você acordou. É que na hora que o que te acordou aconteceu, você ainda tava dormindo. E agora ele estava acordado e a escuridão era completa. Os olhos abertos eram inúteis. Resolve que é melhor que eles fiquem fechados mesmo. Mas agora, a consciência de que eles não servem para nada, de que o quarto está tão escuro, deixa ele desconfortável. Vez ou outra, ele abre os olhos para testar a incapacidade deles. E segue acordado.

A cama mexeu. Ele abre os olhos rápido, só para fechar de novo ainda mais rápido quando percebe que, abertos ou fechados, não havia diferença. Ele está preso à cama. Com medo. Além do mais, se levantar da cama agora é capaz de acordar a mãe e ele já tomou uma bronca por ter ido dormir tarde e depois apagado na escola durante a aula de geografia. Mas só porque era geografia física e ele não entendia porque ele tinha que saber o nome dos rios para ser astronauta.  E a mãe dá mais medo que a cama mexer. Até porque pode ter sido só impressão. Ele que mexeu. É, foi isso.

De novo. Mexeu de novo e dessa vez ele tinha certeza. Que horas devem ser? E se ele se cobrir inteiro? E se fingir que está dormindo? Para fingir que estava dormindo ele tinha coragem. Fechou os olhos e se esforçou para ficar imóvel. Sentia apenas sua respiração movendo o corpo. Teve a impressão de ter alguém em cima dele, sem encostar, por um tempo. Algo como sentir o deslocamento do ar na sua frente misturado com a sensação de ser observado. Mas quando ele abriu o olho, o sol já tinha nascido. Como se ele tivesse apenas piscado. A mãe já estava falando dentro do quarto sobre como eles já estavam atrasados, que se ele queria tomar café da manhã ia ter que ser no caminho, já não dava mais tempo, e não pensa que eu não ouvi você andando de madrugada no quarto, viu, menino? Você não me engana.


II

Viveu assim por anos. Nada nunca acontecia de diferente e ele simplesmente se acostumou a dormir daquele jeito. Algumas noites, quando a mãe viajava e ele não ficava sozinho, parecia que nada acontecia. A companhia na cama acabava com os fenômenos difíceis de explicar. Mas difícil mesmo era explicar para mãe o que isso tinha a ver com a decisão de sair de casa na primeira oportunidade. Não precisa inventar desculpa, pode admitir que é porque você não gosta mais de viver com a minha companhia, blá blá blá.

A namorada passou a dormir com ele tantas noites que era até estranha a sensação quando ela ia embora. Meio que um vegetariano quando come carne. Nessas noites sozinho, principalmente no começo, ele ainda conseguia sentir. O leve tremor inesperado. A sensação de mais alguém no quarto vazio.
Ele sabia que depois, quando a namorada voltasse, a sua outra companhia ia parar. Ele não tinha esperanças de ficar sem ela. A presença sempre voltava.

Algumas mudanças acontecem de um jeito muito gradual. E até faria sentido se essa fosse. Mas não foi. Foi como se um interruptor tivesse sido ligado. A chave caiu. Ele não amava mais a namorada. Foi um dia de manhã que ele acordou logo antes do despertador. Alguns minutos antes, de acordo com o relógio. Ao invés de voltar a dormir, ele desligou o despertador, levantou sem sono e foi tomar banho. Sem sono, sem sentir nada. Saiu do banho e olhou para a namorada ainda deitada na cama como se olhasse para a cama vazia. Preparou café-da-manhã para os dois como se só estivesse desperdiçando parte da comida. Comeram juntos como se come na mesma mesa de um desconhecido em uma praça de alimentação lotada. Se separaram temporariamente na porta do metrô, ela desceu e ele foi em direção ao ponto de ônibus. Se separariam definitivamente naquela noite se ele tivesse tido a coragem. Mais fácil fingir que dormia. Para isso ele tinha coragem.

Foram 3 meses antes de ela levar todas as coisas embora. A presença não estava mais lá também. Na cama, só os seus movimentos. No escuro, nenhuma sensação estranha. Ele sentia um pouco de falta da namorada, mas com o tempo passou a sentir falta também da presença. Passou a dormir mal. Demorou para se acostumar. Seus sonhos pareciam menos criativos. Seus dias acabaram ficando sonolentos. Mas, com o tempo, a presença virou apenas a nostalgia. De tempos diferentes. Quase uma outra vida.


terça-feira, 27 de janeiro de 2015

Poesia Alheia

Um daqueles dias de vasculhar poesia alheia para ver se alguém já se sentiu desse jeito que eu não consigo explicar.

E a dor dos outros é um abraço na minha. Um carinho de leve, daqueles que arrepia.

As notas em ritmo embalam os sonhos acordados. A imaginação cria palácios e bailes. Também cria inferninhos e baladas.

O sol não existe para legislar sobre a duração do meu tempo com você, na minha imaginação.

Compromissos são apenas sugestões de realidade que podem ser ignorados, na minha imaginação.

Tudo isso enquanto eu vasculho poesias alheia em busca de uma descrição do que eu não sei.

Uma nostalgia com o que não aconteceu e nem acontecerá.

Uma decepção com a realidade displicente. Incompetente.

Uma esperança medrosa que não ousa se manifestar. Olhando por cima do meu ombro para ver a sua reação. Me enganando na própria imaginação. Medrosa e tímida, assim como eu. Indecisa assim como você. Incompetente assim como a minha sorte.


Talvez seja hora de aceitar esses finais abertos de música. Não é a dor que traz alguém.

terça-feira, 9 de setembro de 2014

Lugar

Entre asas de avião e pedágios de estrada, fui abandonando lugares. Eles ainda existem na minha memória, em sua maioria, intactos pela passagem do tempo. Entre salas de espera de aeroportos e postos de gasolina pouco movimentados, fui perdendo e abandonando a realidade e me escondendo no imutável mundo da minha mente. Esquecendo para sempre lugares que eu nunca mais vou poder relembrar, lembrando para sempre de lugares que não existem mais. Entre esteiras de bagagem e mijadas de acostamento, deixei de ser dos lugares. Sou só um desconhecido no meu patrimônio histórico.

domingo, 6 de julho de 2014

Fim

Me incomoda que você nunca vai me conhecer inteiro. Daquele jeito que as pessoas mais próximas me conhecem: melhor que eu mesmo. Nunca vai saber dos meus choros desmotivados. Nem daqueles que eu escondo durante filmes. Nunca vai reparar no quanto eu luto contra o sono, mesmo podendo ir dormir. Nunca vai entender como eu escrevo. Ou mesmo aquilo que me faz escrever. Nunca vai se ver só parcialmente num texto meu. Participação especial daquela opinião da semana retrasada. Não. Você faz questão de ser sempre a personagem principal, ou nada. Nunca vai reclamar do jeito repetitivo que eu faço carinho. Nunca vai saber o quanto isso tem a ver com a minha timidez. Você nunca vai entender por que eu bebo. Nunca vai entender minha ânsia de ficar fora mesmo depois de ter reclamado tanto para sair. Nunca vai conhecer o quanto eu consigo ser chato. E nem o mais legal que eu consigo ser. Você nunca vai ver minhas raízes. Nunca vai viver meus bares, minhas praças, meus amigos mais distantes. Você nunca vai me ver tocar. Nunca vai me ver procurando um poema desesperadamente, no meio da noite, só para mim. Nunca vai ouvir um desses poemas saindo da minha boca. Nunca vai passar tanto tempo comigo que no final ir embora é tão bom quanto ter ficado tanto tempo comigo. Você nunca vai ser minha. E por isso, você acaba perdendo o melhor de mim.

segunda-feira, 26 de maio de 2014

Aceito

Eu aceito um fora seu.
Daqui a vinte anos.
Se quiser, pode chamar de divórcio.
Eu aceito um fora seu quando, depois dele, eu me sinta confortável em saber que eu tentei tudo que eu podia tentar.
Agora deixa essa calcinha no chão e deita aqui do meu lado.
Aqui no meu peito.
Deixa eu sentir suas pernas nas minhas.
Deixa eu fingir que amanhã eu não vou ter outra preocupação.
Deixa eu fingir que você é tudo em que eu vou precisar pensar.
Nada dessas coisas feias de trabalho, trânsito, contas e desculpas.
Deixa eu fingir que eu nunca mais vou precisar ler um linha enquanto eu tiver você do meu lado que não seja de uma poesia que eu tenha vontade de ler para você.
Me ajuda a finalmente entender a beleza das coisas do Neruda.
Deixa eu fingir que eu não vou mais pensar em escuridão, escrever mortes e que toda a piada que eu fizer vai ser para fazer você rir e não para vender um desodorante.
Deixa eu fingir que é isso que você quer também, nem que seja só até o sol nascer e você ter que ir embora.
Eu sei que é me enganar.
Eu sei que seu fora não vai demorar nem 24 horas, como toda vez.
Eu sei que na segunda, além de não ter você, eu vou estar preocupado com meus prazos e com contas.
E você vai estar preocupada com as suas coisas também.
E que o mundo vai continuar girando e esmagando sonhos no caminho.
Meus, seus e de todos que vivem nele.
Mas agora, só agora, tudo que eu quero é fingir como eu finjo na minha cabeça as histórias que eu escrevo.
Depois, quando você colocar a calcinha, a saia, a blusa e pegar seu carro para ir para longe de mim, pensa nisso e lembra de voltar.
Para me deixar fingir tudo isso de novo. Pelo menos na minha cabeça.


Da leveza do amor tranquilo

Ela me disse: eu quero a leveza de um amor tranquilo. Amor fácil, meu bem, é para quem tem dificuldade de amar. Para quem encontra no outr...