Zacarias chegou em casa e se perguntou porque insistia em voltar no horário de sempre. Sua esposa, Karen, tinha ido embora já fazia dois anos. Não suportou sua obsessão pelo assassinato da Verônica. Dizia que até a Dona Marta desistira. Na verdade tinha ciúmes. Veja isso, ciúmes de uma mulher morta. Uma menina. Não teria hoje trinta anos.
Zacarias tinha dores de cabeça fortíssimas desde que sua esposa foi embora. O médico não soube dizer porque. O médico não tentou descobrir porque. Cinco minutos de consulta só foi suficiente para prescrever remédios de dor. Mas ele sabia que era da obsessão. Que a dor vinha porque ele não tinha a resposta.
Naquele dia ele tinha sido obrigado a fechar o caso da Verônica. Perdia, finalmente, sua chance de se tornar herói. A imprensa fez todo o circo que pôde em cima do assassinato. Ele acha que isso atrapalhou, mas entende os motivos. Entende a indignação. Hoje, o circo midíatico parece para ele a única redenção que a menina recebeu. Pelo menos as pessoas acharam errado, entende?
Zacarias estava cansado. Há meses pensava em se matar. Hoje achou que não tinha outra escolha. Foi para casa pensando no que ia escrever no bilhete. Não tinha de quem se despedir, mas achou que era importante um bilhete de despedida. Pensou em Karen. Podia mandar uma carta, mas não queria que ela ficasse se remoendo de culpa em cima de um pedaço de papel. Na verdade, queria, mas achou que ia ser uma atitude egoísta.
Sentou-se em uma cadeira de balanço de madeira. Em frente a janela, ficou sentado até o dia amanhecer. Pensou em tudo que conseguiu. Lembrou sua história, e não conseguiu ver o final feliz dos filmes. Ele gostava de finais felizes. Parecia que todo o sofrimento poderia ser justificado se tudo desse certo no final. Todos os fracassos não importavam se no final alguma coisa desse certo.
A dor na cabeça aumentou, mas ele não viu motivos para tomar o remédio. Logo a dor ia passar. Tinha escrito seu nome em uma das balas. Achou a piada interessante. Usou um esmalte que a Karen deixou. Lembrou-se de um filme que falava que as pessoas que deixam coisas importantes fazem isso porque não querem ir embora. E a Karen gostava de esmaltes.
Arma na boca. Oito da manhã. O telefone toca. Karen. “Te acordei?” “Mais ou menos.” “O Zé me ligou. Falou que fecharam o caso da menina. Você tá bem?” “Volta.” “...” “Volta.” “Volto.”
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quinta-feira, 22 de julho de 2010
segunda-feira, 24 de maio de 2010
Xavier
A luz piscando rápida e incessantemente faz com que as pessoas pareçam estar se mexendo devagar. Ela dança como se estivesse sozinha, e pra mim ela está. Completamente sozinha no meio da pista. E com aquela luz ela parece traduzir perfeitamente os movimentos da música. Devagar. Sexy. Pra mim é como se ela não existisse de verdade. Ela é apenas mais uma alucinação causada pelo álcool. Nesse exato segundo não existe ninguém mais bonita que ela no mundo inteiro. As minhas costas se desprendem, com muito custo, da parede do lugar e eu inclino meu corpo pra frente tentando procurar coragem na inércia desse movimento. Mas eu me equilibro pra não cair, e a coragem some. E agora eu estou perdido num mar de pessoas dançantes que esbarram em mim. Eu perdi todas as poses e artifícios no segundo que eu vacilei. Mais dois passos corajosos em direção a ela. Ela olha pra mim. Olha pra mim como se olha um vaso sem flores. É assim que ela me vê. Sempre lá e sempre vazio. Me cumprimenta com um sorriso educado. E eu sinto que não deveria estar ali. Me viro e saio derrotado. Sento em um sofá no canto do lugar. Eu poderia ir embora. Mas não vou. Espero tudo acabar, as luzes se acenderem e o segurança pedir para eu me retirar, A casa tá fechando.
Acordo devagar. Rolo na cama procurando um motivo para me levantar. “É um novo dia” e “as coisas vão ser diferentes” nunca funcionaram pra mim. Mas meus olhos estão abertos. Abro os braços e as pernas. Reúno forças e me levanto mesmo sem motivo, mas só porque não tinha mais motivo pra ficar deitado. Me levanto para ficar de pé, enfim. Caminho pelo meu apartamento vazio e bagunçado. O telefone toca estridente.
Olá, eu estou ligando por causa do currículo que você nos enviou. É o Xavier Ocanha falando, certo? Então, diz aqui que você se formou há dois anos, tem 3 anos de experiência na área, correto? Foi com estágio? Você está disponível agora, não? Seu inglês é fluente, assim como seu espanhol e seu alemão? Ah, o francês também? Por que um poliglota se forma em biblioteconomia? Bem, o emprego é para organização dos arquivos e aplicação do modelo das grandes bibliotecas, sabe? Aquele que é o nome do cara? Então, é esse ai nos volumes que a gente tem aqui, que é mais volume jurídico e histórico mesmo. Você está interessado? A gente pode marcar uma entrevista hoje ainda. Tem como você vir? Fica no Bela Vista mesmo. Três da tarde tá bom? Te vejo aqui.
Entrevista vazia. Normal quando a empresa não tem muita certeza do que quer, ou do que precisa. “Por que um poliglota se forma em biblioteconomia?”. Minha mãe me perguntou isso diversas vezes. Mas ela também nunca entendeu direito o que eu faço. Comecei a trabalhar na organização e na aplicação do sistema Dewey nos volumes do lugar, que era um escritório de advocacia com uma coleção de livros absurdamente grande. Muito desproporcional. O escritório em si tinha umas seis pessoas. Ficava em uma casa no Bela Vista, antiga e grande. Tinha um porão cheio de livros que foram levados para lá por todos os sócios e mais alguns que vieram junto com a compra da casa. Aparentemente, o brinde da compra da casa equivalia a oitenta por cento de toda a coleção, e ninguém sabia exatamente o que tinha lá. Eu entrava no porão todo dia de manhã, levando um lanche para a hora do almoço, e só saia de lá na hora de ir embora. E ninguém me via passar.
Depois de alguns dias nessa rotina, eu cheguei a uma caixa que só continha primeiras edições. Eu não sei como, em um porão úmido e sem a menor preocupação com a preservação dos volumes, eles estavam em tão bom estado. Era como se fosse ouro em uma caixa. Eu pensei mais de dez vezes sobre levar os livros embora. Eles não tinham a menor noção do que tinham ali. Era mais fácil do que tirar doce de criança. Era como comer o doce antes da criança saber que é dela. Eu ia praticamente prestar um serviço público levando essas primeiras edições para mãos que fossem cuidar dela corretamente. Era um dever que eu tinha com a cultura. Mas a culpa me consumia só de pensar no assunto. Naquele dia eu demorei mais que o normal para sair do porão. E quando eu sai, não havia mais ninguém no escritório.
Fui me tocar que era véspera de feriado só depois que eu vi tudo vazio. Testei todas as portas, para ver se alguma estava aberta. E depois comecei a testar as janelas. Achei uma cujo trinco estava quebrado, e não podia ser trancada a cadeado como eram as outras. Foi por ali que eu saí. Fui para casa pensando em como era fácil entrar lá. Ou sair com os volumes em uma ocasião similar. O celular tocou.
Ou, a gente tá aqui num bar perto da sua casa. Happy hour de todo mundo que não vai viajar porque tem que trabalhar na sexta. Passa aqui.
Mais uma vez em direção ao abate cruel da minha auto-estima. Deveriam fazer uma ONG contra a minha mania de socialização. Dá de dez a zero na crueldade do abate de vaquinhas. Se eu fosse um ser social eu não saberia falar cinco línguas fluentemente sem nunca ter saído do país. Aquela vaca não podia ter terminado comigo daquele jeito. Sem aviso prévio, nem nada. Simplesmente “as coisas não estão funcionando”, mais “não é você, sou eu” e a boa e velha “estou numa fase da minha vida na qual não sobra espaço para um relacionamento sério”. Desculpas esfarrapadas. Frases feitas. Deve ter visto algum manual na internet de como terminar sem dar um motivo concreto.
O bar estava mais vazio que o habitual. Muito provável que fosse porque as pessoas estavam indo viajar felizes para cidades a beira-mar. Aonde elas pudessem fritar à milanesa na areia, ao invés de assar lentamente dentro dos ônibus da capital.
Eu fui embora bêbado. Cambaleando e trocando as pernas pela rua, no melhor estilo clássico. As luzes da rua me lembravam filmes noir ruins. Eu esperava a qualquer momento tomar um tiro pelas costas de um sujeito com chapéu e sobretudo. E ele viraria para mim e diria “Jack, eu não posso dizer que não é pessoal, que é apenas negócios. Você não deveria ter se envolvido com a Linda, Jack. Não com a Linda”. E eu sentiria o sangue subir quente pela minha garganta enquanto eu ouvia essas palavras e escorregava pelos braços do meu parceiro na polícia. Tudo isso pensando, sem conseguir falar, que não era a Linda que eu amava, era a Rebecca. E depois a câmera se afastaria, abrindo um plano superior, enquanto um trovão ecoava imediatamente após um relâmpago. E a chuva começava a cair logo antes da tela ficar escura para sempre, e os créditos subirem com um jazz sujo ao fundo.
Eu abri a porta e encontrei um envelope no chão, como se tivesse sido passado por debaixo da porta. Dentro dele um número de telefone. Saquei meu celular e liguei para o número. Uma voz feminina atendeu. Um “alô” tímido, mas com um potencial de ternura imensurável. Falamos por horas. Ela sabia que eu ia ligar. Quem não ligaria? Desligamos quando o sol já estava alto no céu. Ela nunca me falou o nome. Mas me falou para ligar novamente, que iria me encontrar se eu quisesse, mas que ela não explicaria o motivo da carta por baixo da porta a não ser pessoalmente. Eu não teria aceitado isso se eu estivesse sóbrio. Acendi meu cigarro semanal e fumei pensando em como ela seria. Eu tinha todo o feriado pela frente, só não ia viajar por preguiça, ao contrário dos meus amigos condenados ao trabalho.
O corpo dela era como seda na minha pele. Tinha as mãos quentes. Eu sempre tive mãos geladas. Mãos de sushiman. Eu me sentia mal por ainda não saber nada sobre ela, apesar de três dias de esforço. Mas me sentia maravilhosamente bem com a mera presença dela. Ela parou em cima de mim. Me olhando com seus olhos azuis. Ficamos nos olhando pela eternidade mais curta que eu já havia sentido. Ela quebrou o silêncio quando viu que eu demonstrei intenção de começar a falar. “Eu não vou te falar nada. Nós não nos conheceríamos mesmo se falássemos por toda uma vida. Então, ao invés de passarmos a impressão errada um para o outro, não vamos passar impressão nenhuma. Não pense. Se esforce para não pensar sobre isso.”
Não existe “não pensar”. A comunicação e as impressões acontecem independentemente da fala, dos fatos. Pessoas julgam o mundo e classificam as coisas em padrões que fazem sentido para elas. Elas precisam chamar as coisas por algum nome. Mas eu não falei isso para ela. Nós concordamos em inventar nomes um para o outro, apesar de ela saber o meu. Ela sabia muito mais sobre mim. Eu a chamei de Helena. Por ela eu invadiria Tróia, ou compraria uma briga com toda a Grécia. Ela falou que, se fosse para ser grega, preferia ser Ariadne. E começou a me chamar de Teseu. “Sem contar a piada, que é horrível, mas que é fácil” “Que piada?” “Teseu, Tesão...” “Uma coisa eu sei, seu senso de humor não é muito apurado”.
Na segunda-feira eu voltei ao trabalho. Ariadne havia ido embora, prometeu que entraria em contato, que não era para eu procurá-la. Aquele número já havia sido descartado. Eu teria brigado, protestado, mas estava acabado demais por causa do sexo. Concordei, resignado com a situação, apenas para me arrepender depois. Deixei a caixa de primeira edições de lado. Incluiria ela por último na lista. Isso me daria tempo para acariciar minha quebra de moral por mais tempo. Trocar de opinião mais vezes. Além do que, Ariadne não saia da minha cabeça por nada. Eu almoçava naquele porão pensando nela. Eu abria caixas e caixas de livros pensando nela. Eu caminhava lentamente pelas ruas pensando nela. E toda vez que eu abria minha porta, eu esperava por um envelope no chão, com um número dentro.
Meu apartamento tinha apenas três cômodos pequenos. Uma cozinha, uma banheiro e um quarto. Pelo menos essa era a maneira que eu os havia denominado. Você, se preferir, poderia trocar o quarto por sala, sendo o primeiro lugar que se via quando se entrava nele. Tinha uma cama de solteiro e duas cadeiras, sendo que uma delas servia como criado mudo. Na cozinha havia um fogão e uma geladeira. Eu lavava roupa na pia, por falta de um tanquinho. O que não era tão incômodo, e me forçava a lavar a louça sempre que eu acabava de comer, e também a deixar a cozinha organizada. Dois hábitos adquiridos depois de vir para São Paulo. O banheiro possuía as coisas que um banheiro básico devem possuir: chuveiro, privada e pia. Nada mais. Eu havia recentemente colocado um lixinho e parado de usar a própria privada para estes fins. Minhas roupas ficavam penduradas em uma arara no quarto, com os sapatos embaixo e as meias e cuecas em caixas divididas por cores. Meus livros haviam sido todos vendidos para o sebo mais próximo da minha casa durante os dois meses que eu fiquei desempregado graças a demissão causada pelo fato de eu não conseguir sair da cama depois que a vaca foi embora. Pelo menos ela me fez parar de fumar. Não sobrava dinheiro para cigarro. Não parar, mas diminuir drasticamente ao menos.
O sábado chegou. E eu fiquei o dia e a noite inteira em casa esperando contato. Acendi dois cigarros. Eu não tinha fumado tanto desde que a vaca tinha ido. O domingo veio com o mesmo marasmo de sempre. E de repente era segunda. E de novo sexta. E eu andava pelo apartamento sem saber o que fazer. A campainha tocou. Irritante como sempre, mas linda dessa vez. Eu abri a porta. Vestido, com perfume. Eu ficava sempre perfumado para esperar. Era a vaca. Ela entrou pela porta, ignorando minha cara de espanto. Ficou no meio do quarto. Parada, mas continuamente se mexendo. Olhou para mim. “Isso foi um erro, eu vou embora”. E esperou. Esperou para que eu protestasse. Esperou que eu me jogasse de joelhos e negasse o erro. Esperou em vão. A cara de espanto fluiu pelo pequeno apartamento e se tornou a dela. Ela abaixou a cabeça e saiu. Parou na frente e olhou para trás. Não sei se fez menção de voltar. Não segurei a porta aberta para descobrir. Bati forte, como se estivesse batendo nos sentimentos que eu não entendia. Pedindo para que eles fossem embora junto com ela. E eles foram. E só sobrou indignação. Ela, a Ariadne. E eu saí. Bebi cerveja e cachaça. Ouvi samba. Gritei. Fui ridículo. Encontrei amigos e os envergonhei. Me senti vazio, como queria sentir.
Voltei para casa somente para não encontrar nenhum envelope no chão.
No outro dia comprei um caderno. Escrevi várias coisas, nada digno de nota. Escrevi sem me preocupar com línguas, expressando cada conceito, cada palavra, na língua que a fazia soar mais bonita. Um frankenstein linguístico. E conforme a noite se aproximava, eu me cansava de sentir dó de mim mesmo. Liguei para alguns amigos e fui procurar alguma coisa para fazer.
No lugar onde fomos as luzes piscavam e somente nesses momentos quebravam a escuridão. E ele estava cheio de mulheres. E eu conheci uma que me agradou. Era bonita e falava mais do que eu. O que é muito bom quando não se fala muito. E ela me beijou. E quando eu fui buscar uma cerveja, eu vi a Ariadne. Ela nem olhou para mim, mas eu sabia que era ela. Eu fui até ela e falei com ela. Ela fingiu que não me conhecia. Discutimos. Era ela. Tinha que ser ela. Ela falou que se chamava Verônica, não Ariadne. As amigas dela a tiraram de perto de mim. Me fizeram manter distância. A mulher que estava comigo antes viu tudo. Sumiu depois disso. Eu bebi mais. Arranjei uma briga. Voltei para casa com olho roxo para enfrentar o domingo.
Eu gostaria de falar que depois desse episódio eu esqueci a Ariadne. Ou a Verônica. Mas o pensamento só ficou mais forte na minha cabeça. Eu usava todo o meu tempo livre pensando em maneiras de encontra-la. Esperando avistar ela pelas ruas. Os meses se passaram. Eu havia levado as primeiras edições para casa como parte de um plano para encontra-la. Iria contratar um detetive. E precisava de dinheiro para isso. Estava trabalhando no escritório ainda. Estava agora trabalhando com os documentos de casos. Organizando as coisas para que eles achem casos similares com rapidez. Consegui o telefone de um detetive que trabalhava com casos de divórcio. O nome dele era Camilo.
Acordo devagar. Rolo na cama procurando um motivo para me levantar. “É um novo dia” e “as coisas vão ser diferentes” nunca funcionaram pra mim. Mas meus olhos estão abertos. Abro os braços e as pernas. Reúno forças e me levanto mesmo sem motivo, mas só porque não tinha mais motivo pra ficar deitado. Me levanto para ficar de pé, enfim. Caminho pelo meu apartamento vazio e bagunçado. O telefone toca estridente.
Olá, eu estou ligando por causa do currículo que você nos enviou. É o Xavier Ocanha falando, certo? Então, diz aqui que você se formou há dois anos, tem 3 anos de experiência na área, correto? Foi com estágio? Você está disponível agora, não? Seu inglês é fluente, assim como seu espanhol e seu alemão? Ah, o francês também? Por que um poliglota se forma em biblioteconomia? Bem, o emprego é para organização dos arquivos e aplicação do modelo das grandes bibliotecas, sabe? Aquele que é o nome do cara? Então, é esse ai nos volumes que a gente tem aqui, que é mais volume jurídico e histórico mesmo. Você está interessado? A gente pode marcar uma entrevista hoje ainda. Tem como você vir? Fica no Bela Vista mesmo. Três da tarde tá bom? Te vejo aqui.
Entrevista vazia. Normal quando a empresa não tem muita certeza do que quer, ou do que precisa. “Por que um poliglota se forma em biblioteconomia?”. Minha mãe me perguntou isso diversas vezes. Mas ela também nunca entendeu direito o que eu faço. Comecei a trabalhar na organização e na aplicação do sistema Dewey nos volumes do lugar, que era um escritório de advocacia com uma coleção de livros absurdamente grande. Muito desproporcional. O escritório em si tinha umas seis pessoas. Ficava em uma casa no Bela Vista, antiga e grande. Tinha um porão cheio de livros que foram levados para lá por todos os sócios e mais alguns que vieram junto com a compra da casa. Aparentemente, o brinde da compra da casa equivalia a oitenta por cento de toda a coleção, e ninguém sabia exatamente o que tinha lá. Eu entrava no porão todo dia de manhã, levando um lanche para a hora do almoço, e só saia de lá na hora de ir embora. E ninguém me via passar.
Depois de alguns dias nessa rotina, eu cheguei a uma caixa que só continha primeiras edições. Eu não sei como, em um porão úmido e sem a menor preocupação com a preservação dos volumes, eles estavam em tão bom estado. Era como se fosse ouro em uma caixa. Eu pensei mais de dez vezes sobre levar os livros embora. Eles não tinham a menor noção do que tinham ali. Era mais fácil do que tirar doce de criança. Era como comer o doce antes da criança saber que é dela. Eu ia praticamente prestar um serviço público levando essas primeiras edições para mãos que fossem cuidar dela corretamente. Era um dever que eu tinha com a cultura. Mas a culpa me consumia só de pensar no assunto. Naquele dia eu demorei mais que o normal para sair do porão. E quando eu sai, não havia mais ninguém no escritório.
Fui me tocar que era véspera de feriado só depois que eu vi tudo vazio. Testei todas as portas, para ver se alguma estava aberta. E depois comecei a testar as janelas. Achei uma cujo trinco estava quebrado, e não podia ser trancada a cadeado como eram as outras. Foi por ali que eu saí. Fui para casa pensando em como era fácil entrar lá. Ou sair com os volumes em uma ocasião similar. O celular tocou.
Ou, a gente tá aqui num bar perto da sua casa. Happy hour de todo mundo que não vai viajar porque tem que trabalhar na sexta. Passa aqui.
Mais uma vez em direção ao abate cruel da minha auto-estima. Deveriam fazer uma ONG contra a minha mania de socialização. Dá de dez a zero na crueldade do abate de vaquinhas. Se eu fosse um ser social eu não saberia falar cinco línguas fluentemente sem nunca ter saído do país. Aquela vaca não podia ter terminado comigo daquele jeito. Sem aviso prévio, nem nada. Simplesmente “as coisas não estão funcionando”, mais “não é você, sou eu” e a boa e velha “estou numa fase da minha vida na qual não sobra espaço para um relacionamento sério”. Desculpas esfarrapadas. Frases feitas. Deve ter visto algum manual na internet de como terminar sem dar um motivo concreto.
O bar estava mais vazio que o habitual. Muito provável que fosse porque as pessoas estavam indo viajar felizes para cidades a beira-mar. Aonde elas pudessem fritar à milanesa na areia, ao invés de assar lentamente dentro dos ônibus da capital.
Eu fui embora bêbado. Cambaleando e trocando as pernas pela rua, no melhor estilo clássico. As luzes da rua me lembravam filmes noir ruins. Eu esperava a qualquer momento tomar um tiro pelas costas de um sujeito com chapéu e sobretudo. E ele viraria para mim e diria “Jack, eu não posso dizer que não é pessoal, que é apenas negócios. Você não deveria ter se envolvido com a Linda, Jack. Não com a Linda”. E eu sentiria o sangue subir quente pela minha garganta enquanto eu ouvia essas palavras e escorregava pelos braços do meu parceiro na polícia. Tudo isso pensando, sem conseguir falar, que não era a Linda que eu amava, era a Rebecca. E depois a câmera se afastaria, abrindo um plano superior, enquanto um trovão ecoava imediatamente após um relâmpago. E a chuva começava a cair logo antes da tela ficar escura para sempre, e os créditos subirem com um jazz sujo ao fundo.
Eu abri a porta e encontrei um envelope no chão, como se tivesse sido passado por debaixo da porta. Dentro dele um número de telefone. Saquei meu celular e liguei para o número. Uma voz feminina atendeu. Um “alô” tímido, mas com um potencial de ternura imensurável. Falamos por horas. Ela sabia que eu ia ligar. Quem não ligaria? Desligamos quando o sol já estava alto no céu. Ela nunca me falou o nome. Mas me falou para ligar novamente, que iria me encontrar se eu quisesse, mas que ela não explicaria o motivo da carta por baixo da porta a não ser pessoalmente. Eu não teria aceitado isso se eu estivesse sóbrio. Acendi meu cigarro semanal e fumei pensando em como ela seria. Eu tinha todo o feriado pela frente, só não ia viajar por preguiça, ao contrário dos meus amigos condenados ao trabalho.
O corpo dela era como seda na minha pele. Tinha as mãos quentes. Eu sempre tive mãos geladas. Mãos de sushiman. Eu me sentia mal por ainda não saber nada sobre ela, apesar de três dias de esforço. Mas me sentia maravilhosamente bem com a mera presença dela. Ela parou em cima de mim. Me olhando com seus olhos azuis. Ficamos nos olhando pela eternidade mais curta que eu já havia sentido. Ela quebrou o silêncio quando viu que eu demonstrei intenção de começar a falar. “Eu não vou te falar nada. Nós não nos conheceríamos mesmo se falássemos por toda uma vida. Então, ao invés de passarmos a impressão errada um para o outro, não vamos passar impressão nenhuma. Não pense. Se esforce para não pensar sobre isso.”
Não existe “não pensar”. A comunicação e as impressões acontecem independentemente da fala, dos fatos. Pessoas julgam o mundo e classificam as coisas em padrões que fazem sentido para elas. Elas precisam chamar as coisas por algum nome. Mas eu não falei isso para ela. Nós concordamos em inventar nomes um para o outro, apesar de ela saber o meu. Ela sabia muito mais sobre mim. Eu a chamei de Helena. Por ela eu invadiria Tróia, ou compraria uma briga com toda a Grécia. Ela falou que, se fosse para ser grega, preferia ser Ariadne. E começou a me chamar de Teseu. “Sem contar a piada, que é horrível, mas que é fácil” “Que piada?” “Teseu, Tesão...” “Uma coisa eu sei, seu senso de humor não é muito apurado”.
Na segunda-feira eu voltei ao trabalho. Ariadne havia ido embora, prometeu que entraria em contato, que não era para eu procurá-la. Aquele número já havia sido descartado. Eu teria brigado, protestado, mas estava acabado demais por causa do sexo. Concordei, resignado com a situação, apenas para me arrepender depois. Deixei a caixa de primeira edições de lado. Incluiria ela por último na lista. Isso me daria tempo para acariciar minha quebra de moral por mais tempo. Trocar de opinião mais vezes. Além do que, Ariadne não saia da minha cabeça por nada. Eu almoçava naquele porão pensando nela. Eu abria caixas e caixas de livros pensando nela. Eu caminhava lentamente pelas ruas pensando nela. E toda vez que eu abria minha porta, eu esperava por um envelope no chão, com um número dentro.
Meu apartamento tinha apenas três cômodos pequenos. Uma cozinha, uma banheiro e um quarto. Pelo menos essa era a maneira que eu os havia denominado. Você, se preferir, poderia trocar o quarto por sala, sendo o primeiro lugar que se via quando se entrava nele. Tinha uma cama de solteiro e duas cadeiras, sendo que uma delas servia como criado mudo. Na cozinha havia um fogão e uma geladeira. Eu lavava roupa na pia, por falta de um tanquinho. O que não era tão incômodo, e me forçava a lavar a louça sempre que eu acabava de comer, e também a deixar a cozinha organizada. Dois hábitos adquiridos depois de vir para São Paulo. O banheiro possuía as coisas que um banheiro básico devem possuir: chuveiro, privada e pia. Nada mais. Eu havia recentemente colocado um lixinho e parado de usar a própria privada para estes fins. Minhas roupas ficavam penduradas em uma arara no quarto, com os sapatos embaixo e as meias e cuecas em caixas divididas por cores. Meus livros haviam sido todos vendidos para o sebo mais próximo da minha casa durante os dois meses que eu fiquei desempregado graças a demissão causada pelo fato de eu não conseguir sair da cama depois que a vaca foi embora. Pelo menos ela me fez parar de fumar. Não sobrava dinheiro para cigarro. Não parar, mas diminuir drasticamente ao menos.
O sábado chegou. E eu fiquei o dia e a noite inteira em casa esperando contato. Acendi dois cigarros. Eu não tinha fumado tanto desde que a vaca tinha ido. O domingo veio com o mesmo marasmo de sempre. E de repente era segunda. E de novo sexta. E eu andava pelo apartamento sem saber o que fazer. A campainha tocou. Irritante como sempre, mas linda dessa vez. Eu abri a porta. Vestido, com perfume. Eu ficava sempre perfumado para esperar. Era a vaca. Ela entrou pela porta, ignorando minha cara de espanto. Ficou no meio do quarto. Parada, mas continuamente se mexendo. Olhou para mim. “Isso foi um erro, eu vou embora”. E esperou. Esperou para que eu protestasse. Esperou que eu me jogasse de joelhos e negasse o erro. Esperou em vão. A cara de espanto fluiu pelo pequeno apartamento e se tornou a dela. Ela abaixou a cabeça e saiu. Parou na frente e olhou para trás. Não sei se fez menção de voltar. Não segurei a porta aberta para descobrir. Bati forte, como se estivesse batendo nos sentimentos que eu não entendia. Pedindo para que eles fossem embora junto com ela. E eles foram. E só sobrou indignação. Ela, a Ariadne. E eu saí. Bebi cerveja e cachaça. Ouvi samba. Gritei. Fui ridículo. Encontrei amigos e os envergonhei. Me senti vazio, como queria sentir.
Voltei para casa somente para não encontrar nenhum envelope no chão.
No outro dia comprei um caderno. Escrevi várias coisas, nada digno de nota. Escrevi sem me preocupar com línguas, expressando cada conceito, cada palavra, na língua que a fazia soar mais bonita. Um frankenstein linguístico. E conforme a noite se aproximava, eu me cansava de sentir dó de mim mesmo. Liguei para alguns amigos e fui procurar alguma coisa para fazer.
No lugar onde fomos as luzes piscavam e somente nesses momentos quebravam a escuridão. E ele estava cheio de mulheres. E eu conheci uma que me agradou. Era bonita e falava mais do que eu. O que é muito bom quando não se fala muito. E ela me beijou. E quando eu fui buscar uma cerveja, eu vi a Ariadne. Ela nem olhou para mim, mas eu sabia que era ela. Eu fui até ela e falei com ela. Ela fingiu que não me conhecia. Discutimos. Era ela. Tinha que ser ela. Ela falou que se chamava Verônica, não Ariadne. As amigas dela a tiraram de perto de mim. Me fizeram manter distância. A mulher que estava comigo antes viu tudo. Sumiu depois disso. Eu bebi mais. Arranjei uma briga. Voltei para casa com olho roxo para enfrentar o domingo.
Eu gostaria de falar que depois desse episódio eu esqueci a Ariadne. Ou a Verônica. Mas o pensamento só ficou mais forte na minha cabeça. Eu usava todo o meu tempo livre pensando em maneiras de encontra-la. Esperando avistar ela pelas ruas. Os meses se passaram. Eu havia levado as primeiras edições para casa como parte de um plano para encontra-la. Iria contratar um detetive. E precisava de dinheiro para isso. Estava trabalhando no escritório ainda. Estava agora trabalhando com os documentos de casos. Organizando as coisas para que eles achem casos similares com rapidez. Consegui o telefone de um detetive que trabalhava com casos de divórcio. O nome dele era Camilo.
domingo, 23 de maio de 2010
Walter
Walter olhou para o relógio esperando uma resposta que ele naturalmente não conseguiu. Não era na máquina que ele procurava essa resposta, e era apenas isso que o círculo na parede era. Os ponteiros que desciam não o levavam a lugar nenhum. A criança continuava sentada no canto da sala, brincando com um carrinho de metal. Como quatro anos poderiam ter se passado tão rápido? Na verdade, quase cinco.
O menino tinha batido na porta duas horas antes. Estava assustado e carregava um papel. Enquanto ele lia, pensava no quão cliché aquilo era. “Rodrigo, você é um homem difícil de achar. Principalmente porque esse nem é seu nome, né? Você podia ter me falado isso. Eu queria que seu filho tivesse o nome do pai. Mas acho que Rodrigo é tão bom quanto qualquer outro nome. Eu estou cansada e doente. Não posso mais cuidar dele. Eu torço para que você viva mais tempo que eu. Sabrina.” Depois disso ele falou para o menino sentar. Desde então, anda pela casa e olha para o relógio.
Pegou o computador e viu o saldo de sua conta e de suas aplicações. Depois, fez todas as contas para saber quanto o menino iria custar e quanto ele teria de renda sem nunca mais trabalhar. Pela segunda vez direcionou a voz para o menino. “Vem, eu tenho que me livrar de algumas coisas e você não pode ficar sozinho.” O menino levantou, obediente e assustado, e seguiu seu pai até a casa vizinha. “Beatriz, você pode cuidar do meu filho por uma hora?” “Desde quando você tem filho?” “Eu já volto. Você pode cuidar do meu filho?” “Estamos misteriosos?” “Sem gracinhas, e sem perguntas para o menino. Explico depois. Pode?” “Claro. Claro.”
O menino achou a casa feia. E por achar tão feia, seu olhar não parava. A mulher entendeu aquilo como interesse e passou a explicar o significado de tudo. A ligação que todos nós temos com a mãe terra e coisas que pareciam histórias infantis.
Seu pai voltou, mas eles ainda ficaram algum tempo na vizinha. Ele vendo TV, e o pai conversando na cozinha com a mulher. Depois, eles voltaram para casa e o pai perguntou se a mãe dele tinha dito como ele se chamava. O menino respondeu que sim. Então, o pai segurou seu rosto carinhosamente e disse para ele nunca mais chama-lo de Rodrigo. Rodrigo era só o menino. O pai era Walter. A partir de agora, para sempre Walter.
O menino tinha batido na porta duas horas antes. Estava assustado e carregava um papel. Enquanto ele lia, pensava no quão cliché aquilo era. “Rodrigo, você é um homem difícil de achar. Principalmente porque esse nem é seu nome, né? Você podia ter me falado isso. Eu queria que seu filho tivesse o nome do pai. Mas acho que Rodrigo é tão bom quanto qualquer outro nome. Eu estou cansada e doente. Não posso mais cuidar dele. Eu torço para que você viva mais tempo que eu. Sabrina.” Depois disso ele falou para o menino sentar. Desde então, anda pela casa e olha para o relógio.
Pegou o computador e viu o saldo de sua conta e de suas aplicações. Depois, fez todas as contas para saber quanto o menino iria custar e quanto ele teria de renda sem nunca mais trabalhar. Pela segunda vez direcionou a voz para o menino. “Vem, eu tenho que me livrar de algumas coisas e você não pode ficar sozinho.” O menino levantou, obediente e assustado, e seguiu seu pai até a casa vizinha. “Beatriz, você pode cuidar do meu filho por uma hora?” “Desde quando você tem filho?” “Eu já volto. Você pode cuidar do meu filho?” “Estamos misteriosos?” “Sem gracinhas, e sem perguntas para o menino. Explico depois. Pode?” “Claro. Claro.”
O menino achou a casa feia. E por achar tão feia, seu olhar não parava. A mulher entendeu aquilo como interesse e passou a explicar o significado de tudo. A ligação que todos nós temos com a mãe terra e coisas que pareciam histórias infantis.
Seu pai voltou, mas eles ainda ficaram algum tempo na vizinha. Ele vendo TV, e o pai conversando na cozinha com a mulher. Depois, eles voltaram para casa e o pai perguntou se a mãe dele tinha dito como ele se chamava. O menino respondeu que sim. Então, o pai segurou seu rosto carinhosamente e disse para ele nunca mais chama-lo de Rodrigo. Rodrigo era só o menino. O pai era Walter. A partir de agora, para sempre Walter.
domingo, 7 de março de 2010
Verônica
Verônica não gostava de ser menina. Tinha que ficar limpa, educada, sorridente e simpática o tempo todo, e um pouco mais quando tinha visita. Enquanto isso, os meninos podiam se sujar, correr e se machucar à vontade. Até tomavam bronca depois, mas era isso que se esperava deles. Ninguém espera de um menino o comportamento que era esperado dela. E, quando um dos meninos se comportava bem, os outros meninos, e mesmo outros pais, achavam estranho. Mas nunca os pais da criança. Ficavam inconformados com toda a barbárie, quando até a própria Verônica sabia que eram simplesmente crianças.
Verônica cresceu e perdeu parte da vontade de ser menino. Sempre teve mais amigos do que amigas, mas gostava de não ser um deles. A atenção especial de ser diferente agradava a menina. E ela aprendeu rápido a usar essa atenção a seu favor. Uma atitude que sua mãe odiava. Seu pai, no entanto, encorajou enquanto esteve presente. Dizia que todos os talentos devem ser explorados, desenvolvidos. Nunca se sabe quando vamos precisa de um deles, não é, filha? Um infarto fulminante interrompeu os conselhos do pai quando ela ainda tinha 15 anos. Seu ódio pela mãe, ainda menos presente que o pai, cresceu, e quando ela tinha 20 anos, já não se falavam completamente.
A mãe de Verônica também não gostava de ser menina. Não pelos mesmos motivos que ela, mas pelo que significava ser menina na época em que havia crescido. Hoje, ela adorava ser menina, principalmente do jeito dela. Dava um sabor especial em todas as conquistas da vida, por menores que fossem. Acabou dando uma amargura especial quando a filha desapareceu depois de diversas brigas. E o mundo quase ruiu quando foi identificada a ossada dentro de um carro queimado não-identificado.
Verônica gostava de brincar. Muitas vezes, brincava mais do que devia. Vivia num mundo verde e fantasioso, onde podia tudo. O dinheiro comprava sua inocência e sua pureza. Cresceu livre e amoral. Forte e insana.
Verônica cresceu e perdeu parte da vontade de ser menino. Sempre teve mais amigos do que amigas, mas gostava de não ser um deles. A atenção especial de ser diferente agradava a menina. E ela aprendeu rápido a usar essa atenção a seu favor. Uma atitude que sua mãe odiava. Seu pai, no entanto, encorajou enquanto esteve presente. Dizia que todos os talentos devem ser explorados, desenvolvidos. Nunca se sabe quando vamos precisa de um deles, não é, filha? Um infarto fulminante interrompeu os conselhos do pai quando ela ainda tinha 15 anos. Seu ódio pela mãe, ainda menos presente que o pai, cresceu, e quando ela tinha 20 anos, já não se falavam completamente.
A mãe de Verônica também não gostava de ser menina. Não pelos mesmos motivos que ela, mas pelo que significava ser menina na época em que havia crescido. Hoje, ela adorava ser menina, principalmente do jeito dela. Dava um sabor especial em todas as conquistas da vida, por menores que fossem. Acabou dando uma amargura especial quando a filha desapareceu depois de diversas brigas. E o mundo quase ruiu quando foi identificada a ossada dentro de um carro queimado não-identificado.
Verônica gostava de brincar. Muitas vezes, brincava mais do que devia. Vivia num mundo verde e fantasioso, onde podia tudo. O dinheiro comprava sua inocência e sua pureza. Cresceu livre e amoral. Forte e insana.
sábado, 18 de julho de 2009
Ulisses
Eu não venho de uma família importante. Na verdade, acho que ninguém da minha família nas últimas gerações saiu do anonimato. Nenhum herói. Pelo menos não no sentido de se tornar conhecido pelos seus atos, ou de mudar o pensamento das pessoas. Eu, obviamente, sempre tive meus heróis. Aquelas pessoas que eu admirava e tomava como padrão de comportamento. E eles foram aos poucos morrendo e perdendo lugar na minha cabeça. Hoje, eu não os tenho. Pelo menos não daqueles que você quer copiar. Eu tenho pessoas que eu admiro, mas me falta um herói de verdade. Inabalável. Inteligente. Uma pessoa que possa ser admirada. Alguém que eu acredite que faria as escolhas certas se estivesse no meu lugar. Porque eu preciso acreditar que alguem faria. Porque eu tenho certeza que eu não as faço. Nem vou conseguir fazer. Eu não quero assumir responsabilidade pelos meus atos. Eu quero ser o centro do mundo. E eu não posso fazer isso me sentindo culpado pelo fato de que se eu não fizer a coisa certa, ninguém vai fazer. Eu odeio essa culpa. Eu quero ser expiado dessa culpa. E aonde está meu herói? Jogado em algum emprego ruim? Ignorado porque o seu trabalho não condizia com o que era padrão e ele não quis se vender? Meu herói nunca vai aparecer. E de que me importa um herói anônimo? Como eu vou expiar minha culpa pelas ações de alguém que eu não conheço? Que se fodam os heróis anônimos desse mundo. Esses inúteis que encaram a realidade sem as armas pra isso. Só me sobram atos heróicos de pessoas comum. E esses só me afundam mais na minha culpa. Mundo de merda. Piada sem graça.
segunda-feira, 13 de julho de 2009
Tamires
Colaboração externa, no caso, da Amanda, minha namorada.
Tamires
Ela acaba de puxar a meia 7/8 (sete oitavos) devagar, mas sem cuidado ou atenção. Acostumou-se a sentir o elástico apertando a perna, dividindo um pouco a carne. Passou de novo o batom escuro - os lábios haviam perdido a cor para o copo - e logo puxou um e outro olho, esticando para contorná-los. Envolveu-se em preto, apertou as amarras que lhe destacavam a cintura, e subiu em seus sapatos de verniz. Como de costume.
Foi com sua expressão cliché blasé, que tanto se esforçara para representar e hoje surgia naturalmente (não pelo treino, mas involuntariamente). Estava ficando velha para aquilo. A perspectiva de dançar todo dia na balada e ainda ganhar dinheiro por isso deixou de ser seu mundo ideal havia algum tempo.
Subiu no balcão e começou a dançar como fazia há 8 anos, talvez com menos paixão, mas com uma sensualidade reproduzida no ritmo com precisão. Não se lembra de quando deixou de se sentir em um desenho dos anos 30, daqueles em tons sépia que têm alguns quadros faltando e rodam dando "pulinhos", onde as pessoas têm grandes cílios e belas pernas. O filme ficou devagar, saiu do rolo e a tela ficou branca. Foi-se o glamour, o "wanna be", a ânsia de ser aquela personagem, e ficou a dependência dos olhos vidrados de tesão,o admiração e álcool. Vício em um mar convulsivo de indivíduos quase inertes que olhavam para cima e viam nela uma deusa. De sentir olhos percorrendo a linha branca de seu calcanhar até o fim da coxa. Fechou o casaco e saiu pela porta dos fundos. So restavam lá dentro os que não tiveram consciência das luzes acesas e as vassouras dançantes.
Andou sozinha em paralelepípedos pretos e úmidos, apertando os braços. Chegou em seu apartamento e deitou-se no sofá. Acendeu um cigarro. Estava com ressaca de tantos cigarros que fumou sem encostar. Continuou com ele aceso. Abriu o casaco, e virou os quadris lentamente para um lado e depois para o outro, olhando seu corpo serpentear. Assim queria ser vista. Ou não. Fechou o casaco com um movimento brusco. Levantou-se e foi pegar uma bebida ambarada na cozinha. Encostou, pé na parede, olhar atravessando o chão, uma mão na cintura servindo de apoio ao cotovelo, a unha do dedão presa entre dentes e o cigarro ao lado dos olhos distantes. Foda-se como me vêem... bostas. Dizem estar sujeitos ao que o corpo manda, sem voz, sem voto, sem consciência. "é necessidade..." "eu não queria...". Áh, vá. Vão todos pra grande puta gorda que pariu, nunca serviram de nada e nem vão servir.
O que largou ela com fitinhas no cabelo e promessas de arco-íris, o que fez ela acreditar que era diferente, o que fez ela sentir a primeira dor fora do peito, o que 'não queria' ter magoado ela, o que a pôs em um pedestal e se deleitou com as plebéias, o que lhe deu o primeiro tabefe/murro, o que lhe deu o último, o que sumiu do mapa, o que se apaixonou pela melhor amiga, o que se esqueceu dela por duas mais novas, o que lhe roubou por um pico, os que lhe deram rugas, cicatrizes, marcas, pesos, e esse olhar cansado.
'Fodam-se todos eles. Não foi falta de amostragem, homem é estatisticamente um bixo fraco de merda. O que importa é o fim, não o começo. Claro que cada um é diferente de início. Inteligente, adorável, irresistível, quente, boêmio, poeta, músico, estiloso, cheiroso, bom filho, bom irmão, bom amante e quem sabe bom marido, cada um com seus predicados, que vão dar na mesma merda. Rimel espalhado pelo rosto e remédio pra dormir.'
Colocou o copo vazio na pia saia da cozinha quando o telefone tocou.
Tá. to precisando de você. (Esse aí também não presta. Mas esse fardo não é meu)
Fala Fábio...
Contou a ela de alguma merda que tinha feito com alguma dondoca que namorava. De novo.
'Ele se liga numa coroa... Édipo mal resolvido. Ou complexo de bon vivant. Preguiça de pegar no batente, falta de figura paterna. Taí uma coisa para a qual os homens podem prestar: evitar que existam mais merdinhas no mundo, dando um exemplo decente (mesmo que falso). Eu sou mais a minha mãe. Deus me livre ser como ela... Mas tenho que dar o crédito. Ninguem levantou um puto dedo pra ajudar ela. Nem eu. E ela fez tudo sozinha. Nunca precisou de ninguém. Homem que aparecia era só atraso de vida, por isso não se envolveu com nenhum. Minha mãe é a virgem maria. No fim meu irmão cresceu estragado... mas é a vida.'
Ele se despediu, e ela acordou de seu devaneio psicanalítico de programa de bafão. Foi tomar banho, limpou a alma, deitou de roupão para ver alguma coisa leve na TV, mas não tirou o preto dos olhos. Pra ficar bem claro quem ela tinha se tornado, e não esquecer que não dava pra voltar.
Tamires
Ela acaba de puxar a meia 7/8 (sete oitavos) devagar, mas sem cuidado ou atenção. Acostumou-se a sentir o elástico apertando a perna, dividindo um pouco a carne. Passou de novo o batom escuro - os lábios haviam perdido a cor para o copo - e logo puxou um e outro olho, esticando para contorná-los. Envolveu-se em preto, apertou as amarras que lhe destacavam a cintura, e subiu em seus sapatos de verniz. Como de costume.
Foi com sua expressão cliché blasé, que tanto se esforçara para representar e hoje surgia naturalmente (não pelo treino, mas involuntariamente). Estava ficando velha para aquilo. A perspectiva de dançar todo dia na balada e ainda ganhar dinheiro por isso deixou de ser seu mundo ideal havia algum tempo.
Subiu no balcão e começou a dançar como fazia há 8 anos, talvez com menos paixão, mas com uma sensualidade reproduzida no ritmo com precisão. Não se lembra de quando deixou de se sentir em um desenho dos anos 30, daqueles em tons sépia que têm alguns quadros faltando e rodam dando "pulinhos", onde as pessoas têm grandes cílios e belas pernas. O filme ficou devagar, saiu do rolo e a tela ficou branca. Foi-se o glamour, o "wanna be", a ânsia de ser aquela personagem, e ficou a dependência dos olhos vidrados de tesão,o admiração e álcool. Vício em um mar convulsivo de indivíduos quase inertes que olhavam para cima e viam nela uma deusa. De sentir olhos percorrendo a linha branca de seu calcanhar até o fim da coxa. Fechou o casaco e saiu pela porta dos fundos. So restavam lá dentro os que não tiveram consciência das luzes acesas e as vassouras dançantes.
Andou sozinha em paralelepípedos pretos e úmidos, apertando os braços. Chegou em seu apartamento e deitou-se no sofá. Acendeu um cigarro. Estava com ressaca de tantos cigarros que fumou sem encostar. Continuou com ele aceso. Abriu o casaco, e virou os quadris lentamente para um lado e depois para o outro, olhando seu corpo serpentear. Assim queria ser vista. Ou não. Fechou o casaco com um movimento brusco. Levantou-se e foi pegar uma bebida ambarada na cozinha. Encostou, pé na parede, olhar atravessando o chão, uma mão na cintura servindo de apoio ao cotovelo, a unha do dedão presa entre dentes e o cigarro ao lado dos olhos distantes. Foda-se como me vêem... bostas. Dizem estar sujeitos ao que o corpo manda, sem voz, sem voto, sem consciência. "é necessidade..." "eu não queria...". Áh, vá. Vão todos pra grande puta gorda que pariu, nunca serviram de nada e nem vão servir.
O que largou ela com fitinhas no cabelo e promessas de arco-íris, o que fez ela acreditar que era diferente, o que fez ela sentir a primeira dor fora do peito, o que 'não queria' ter magoado ela, o que a pôs em um pedestal e se deleitou com as plebéias, o que lhe deu o primeiro tabefe/murro, o que lhe deu o último, o que sumiu do mapa, o que se apaixonou pela melhor amiga, o que se esqueceu dela por duas mais novas, o que lhe roubou por um pico, os que lhe deram rugas, cicatrizes, marcas, pesos, e esse olhar cansado.
'Fodam-se todos eles. Não foi falta de amostragem, homem é estatisticamente um bixo fraco de merda. O que importa é o fim, não o começo. Claro que cada um é diferente de início. Inteligente, adorável, irresistível, quente, boêmio, poeta, músico, estiloso, cheiroso, bom filho, bom irmão, bom amante e quem sabe bom marido, cada um com seus predicados, que vão dar na mesma merda. Rimel espalhado pelo rosto e remédio pra dormir.'
Colocou o copo vazio na pia saia da cozinha quando o telefone tocou.
Tá. to precisando de você. (Esse aí também não presta. Mas esse fardo não é meu)
Fala Fábio...
Contou a ela de alguma merda que tinha feito com alguma dondoca que namorava. De novo.
'Ele se liga numa coroa... Édipo mal resolvido. Ou complexo de bon vivant. Preguiça de pegar no batente, falta de figura paterna. Taí uma coisa para a qual os homens podem prestar: evitar que existam mais merdinhas no mundo, dando um exemplo decente (mesmo que falso). Eu sou mais a minha mãe. Deus me livre ser como ela... Mas tenho que dar o crédito. Ninguem levantou um puto dedo pra ajudar ela. Nem eu. E ela fez tudo sozinha. Nunca precisou de ninguém. Homem que aparecia era só atraso de vida, por isso não se envolveu com nenhum. Minha mãe é a virgem maria. No fim meu irmão cresceu estragado... mas é a vida.'
Ele se despediu, e ela acordou de seu devaneio psicanalítico de programa de bafão. Foi tomar banho, limpou a alma, deitou de roupão para ver alguma coisa leve na TV, mas não tirou o preto dos olhos. Pra ficar bem claro quem ela tinha se tornado, e não esquecer que não dava pra voltar.
segunda-feira, 18 de maio de 2009
Sabrina
- Você tem medo de relacionamento.
- Não, não tenho, Rodrigo. Existe uma diferença gigantesca entre eu não querer nada com você e eu ter medo de relacionamento.
- Eu não tô falando de mim. Eu tô falando de maneira geral.
- Claro que não, você só acha isso porque eu não quero nada sério com você.
- Larga de ser burra. Eu não sou assim. Eu tô fazendo uma análise séria.
- E quem te pediu pra fazer uma análise séria? E burra é a mãe.
- Cala a boca e deixa eu falar. Tudo o que você faz é pra evitar relacionamento. Eu não estou falando que é por isso que você não quer nada comigo. Eu estou falando que, de maneira geral, você evita se aproximar de verdade das pessoas. Você acaba se envolvendo fisicamente antes de deixar alguma coisa
- Você não pensa isso de verdade, né?
- É tipo o Don Juan, que não queria ter um relacionamento sério com ninguém. No fundo, ele ficava com muitas para permanecer fiel a idéia de uma que ele não poderia ter. Então, enquanto ele se envolvesse com todas indiscriminadamente, ele estaria sendo dialeticamente fiel àquela que ele não pode ter.
- Num entendi nada.
- Esquece.
Ele se levantou da cama e colocou a calça. Chegou perto da janela e acendeu um cigarro, olhando as pessoas passando na rua. Ele realmente estava gostando dela, e não deveria estar. E ele sabia disso. E ele tentava arranjar mil desculpas e defeitos e problemas e gastava boa parte do seu tempo com isso. Ele não podia se envolver. Estava feliz assim. Já fazia dois meses que ele estava com o mesmo nome. Não que tenha dado algum problema, mas é o tipo de coisa que poderia estragar uma operação. Se ele se apresenta com nomes diferentes a polícia acha que são pessoas diferentes. Não liga os pontos. Ou pelo menos fica mais difícil ligar. Tudo bem que ele não fazia nada já fazia um bom tempo. Mas mesmo assim. Meu Deus, se fosse no Texas ele iria pra cadeira elétrica. Já tinha matado tanta gente que importava para pessoas importantes que nem um julgamento justo ele ia ter. Era capaz de ter matado algum parente do juiz. E por quê? Pra que? Pra sobreviver. A vida dessas pessoas em troca da dele. Era isso que ele pensava sempre. Sem isso ele estaria morto, e ele sabe disso. Ele mesmo ia ter feito o serviço. Em doses lentas, devagar, do jeito mais cruel. Agora não. Agora mesmo sem isso ele teria a Sabrina. Meu Deus, nem deve ser o nome dela. Ela mente tanto quanto eu. Ela mente melhor do que eu. Muito melhor do que eu. E ele só sabia tratar problemas de um jeito. Quer dizer, ele conseguia lidar com os problemas de mil maneiras, mas no fim era tudo com o mesmo fim. Ele acabou o cigarro. Colocou a camiseta e o tênis. Saiu sem falar nada e sem responder pra onde ia.
- Não, não tenho, Rodrigo. Existe uma diferença gigantesca entre eu não querer nada com você e eu ter medo de relacionamento.
- Eu não tô falando de mim. Eu tô falando de maneira geral.
- Claro que não, você só acha isso porque eu não quero nada sério com você.
- Larga de ser burra. Eu não sou assim. Eu tô fazendo uma análise séria.
- E quem te pediu pra fazer uma análise séria? E burra é a mãe.
- Cala a boca e deixa eu falar. Tudo o que você faz é pra evitar relacionamento. Eu não estou falando que é por isso que você não quer nada comigo. Eu estou falando que, de maneira geral, você evita se aproximar de verdade das pessoas. Você acaba se envolvendo fisicamente antes de deixar alguma coisa
- Você não pensa isso de verdade, né?
- É tipo o Don Juan, que não queria ter um relacionamento sério com ninguém. No fundo, ele ficava com muitas para permanecer fiel a idéia de uma que ele não poderia ter. Então, enquanto ele se envolvesse com todas indiscriminadamente, ele estaria sendo dialeticamente fiel àquela que ele não pode ter.
- Num entendi nada.
- Esquece.
Ele se levantou da cama e colocou a calça. Chegou perto da janela e acendeu um cigarro, olhando as pessoas passando na rua. Ele realmente estava gostando dela, e não deveria estar. E ele sabia disso. E ele tentava arranjar mil desculpas e defeitos e problemas e gastava boa parte do seu tempo com isso. Ele não podia se envolver. Estava feliz assim. Já fazia dois meses que ele estava com o mesmo nome. Não que tenha dado algum problema, mas é o tipo de coisa que poderia estragar uma operação. Se ele se apresenta com nomes diferentes a polícia acha que são pessoas diferentes. Não liga os pontos. Ou pelo menos fica mais difícil ligar. Tudo bem que ele não fazia nada já fazia um bom tempo. Mas mesmo assim. Meu Deus, se fosse no Texas ele iria pra cadeira elétrica. Já tinha matado tanta gente que importava para pessoas importantes que nem um julgamento justo ele ia ter. Era capaz de ter matado algum parente do juiz. E por quê? Pra que? Pra sobreviver. A vida dessas pessoas em troca da dele. Era isso que ele pensava sempre. Sem isso ele estaria morto, e ele sabe disso. Ele mesmo ia ter feito o serviço. Em doses lentas, devagar, do jeito mais cruel. Agora não. Agora mesmo sem isso ele teria a Sabrina. Meu Deus, nem deve ser o nome dela. Ela mente tanto quanto eu. Ela mente melhor do que eu. Muito melhor do que eu. E ele só sabia tratar problemas de um jeito. Quer dizer, ele conseguia lidar com os problemas de mil maneiras, mas no fim era tudo com o mesmo fim. Ele acabou o cigarro. Colocou a camiseta e o tênis. Saiu sem falar nada e sem responder pra onde ia.
quinta-feira, 14 de maio de 2009
Rodrigo
Ele acordou. Abriu os olhos, mas não se levantou. Os braços abertos ocupando toda a cama de casal. Acordar sozinho tem suas vantagens e suas desvantagens. Riu pensando nisso. Levantou-se da cama, colocou a calça jeans mais próxima, uma camiseta, um tênis e colocou a pistola na cintura, por baixo da camiseta. Olhou para o relógio e viu que ainda tinha duas horas até a hora de se encontrar com o alvo. Naquele mês seu nome era Rodrigo. No mês passado tinha sido Paulo. Estava pensando no nome do próximo mês logo antes de ir dormir. Sonhou com Matheus. E assim que se lembrou disso, pouco antes de sair de casa, se decidiu. Mês que vem é Matheus. Antigamente ele usava apelidos, assim não sentia que estava mentindo quando perguntavam o nome. O problema é que sempre tinha um babaca que perguntava “Mas qual seu nome mesmo?”. Porra, foda-se o nome, o que importa é você ter como me chamar. Mas ficava suspeito ele não responder, então ele começou a usar nomes mesmo. Aí se ele resolvia usar um apelido no meio do trabalho, ele pelo menos não vacilava quando perguntavam o nome de “verdade”. Desceu de escada, já que estava no segundo andar. Saiu pela portaria e deu um aceno de cabeça pro recepcionista. Duas horas. O que fazer com essas duas horas? Na primeira vez ele vomitou por duas horas. O problema não é fazer, é pensar no que vai fazer. Depois que está feito, só adrenalina. Na verdade foi o que manteve ele no negócio. A primeira vez foi meio que uma dívida. O cara era um dono de boca que ele tava devendo, da época que ele era junkie, e ao invés de matá-lo pela dívida, o cara preferiu pedir pra ele matar um outro cara. Ele tinha uns 22 na época. Fez o serviço tão bem que o cara da boca começou a pagar ele por alguns outros serviços. Até que o cagão começou a ficar com medo de ele querer tomar a boca. Mandou matarem ele. Ele se safou. Tomou a boca e entregou de mão beijada pra outro cara. E pronto. Ele tinha acabado de conseguir toda a reputação que precisava. O resto é contato. Agora lá está ele parado na rua augusta, sua residência do mês, pensando no que vai fazer com as duas preciosas horas que tem. E um puteiro soou como uma boa opção. O único problema é que putas não gostam que você leve armas pro quarto delas. Sem contar os babacas da entrada, que ficam revistando. Deixou a arma no quarto e foi procurar alguma puta boa pra uma metida rápida.
Chega ai amigo, quer meter hoje? Tem 30 meninas lá dentro, chega ai. 10 reais e eu te dou uma cerveja e uma capirinha. Qual cerveja? Skol. Ta certo. Mas não precisa mentir que eu sei que não tem 30 meninas lá dentro. Têm sim, é que tem algumas que tão no quarto, ai vai parecer que tem um pouco menos.
Mentira.
Ele entra sabendo que não vai tomar a caipirinha, porque caipirinha de puteiro é horrível. Aqui na Augusta pelo menos. Pega a cerveja com o barman com cara de poucos amigos.
Conheci um barman de puteiro uma vez que namorava uma das meninas. Ele falava que entendia e tudo mais, que ele tinha conhecido ela assim, que ele não tinha grana também e não podia fazer nada. Tinha que aceitar. Ficava com cara de bosta toda noite, o que pra mim só prova que ele, na verdade, se importava. Aí eu paguei pra comer a namorada dele uma vez, só pra ver se eu tava certo. É, eu tava. Ele veio irado pra cima de mim falando que eu era amigo dele, que eu não tinha direito de fazer isso. Ao que eu respondi: “Mas eu paguei !”. Depois disso ele nunca mais falou comigo. Mas eu também não me esforcei. Isso foi pouco antes de eu vir pra São Paulo, eu só vi ele mais umas duas vezes antes de mudar pra cá.
Senta-se num dos sofás do lugar e olha em volta pra ver se acha alguma coisa. Ele acha. Loira tingida, mas com uma bunda e uma barriga fenomenais. Coxas tão grossas que pareciam que podiam matar ele. Meio feia de rosto e bastante sem peito. Mas pra um relacionamento de meia hora tava ótimo.
Quanto é o programa? Cem reais mais o quarto. Nem fudendo, muito caro. Pago cinqüenta mais o quarto. Setenta, gatinho, nem um centavo a menos. Fechado.
Ele foi até o balcão com ela pra pagar pro “caixa”. Ela ficou passando a mão no pau dele por fora da calça. Ele olhou pra ela com um olhar meio indefinido. Algo entre “você não quer parar?” e “até que está gostoso”. Levou ela pro quarto. Tirou a pouca roupa dela antes de perguntar o nome. Sabrina. Ela tinha pegado uma camisinha com o cara que marcava o tempo dos quartos no corredor atrás da boate. Colocou pra ele, logo depois de ele ter tirado a roupa e deitado na cama. Ela subiu em cima dele e começou a cavalgar, gemendo da maneira menos falsa que conseguia. Ela não era muito boa nessa parte. Ele girou, a colocou por baixo e deu um beijo na boca dela. Bem, já que eu estou aqui eu posso muito bem fazer isso direito. Pelo menos ela não vai ficar gemendo desse jeito falso no meu ouvido. Ele se esforçou, de fato, mas não são bem assim que as coisas funcionam. Ele não foi o pior da noite, na verdade foi o melhor. Os outros foram dois moleques de 18 anos que gozaram rápido demais e um outro cara, de uns 40 anos, casado. Péssimo. Mas mesmo assim ele não a fez realmente sentir prazer. E saiu sabendo disso.
Certo. Agora eu tenho uma hora e 15 minutos pra chegar aonde eu preciso, pegar a vagabundinha, levar ela pra um lugar deserto, e dar um tiro na nuca dela enquanto ela estiver abaixada cheirando a cocaína, a junkiezinha. Sem problema.
Ele não sabia por que ia matar ela. Só mostraram quem ela era. Ele a seguiu por um tempo. Muitos seguranças. Sempre. Muitas câmeras. Sempre. Ele só viu um jeito de conseguir ficar com ela sozinha. Se ela mesmo fugisse dos seguranças. Ficou com ela uma noite, depois outra. Descobriu que ela gostava de cocaína. Ai foi só falar que ele tinha pros dois, pra eles cheirarem antes de ir pra balada. Ela nunca viu ele cheirando, exatamente porque ele parou, desde que ele começou a matar ele não precisa mais disso, mas ele falou que era porque ele não gostava de cheirar no meio da festa. A desculpa caiu como uma luva pro que ele queria. O nome dela era Vivian. Ele não sabe nem porque ela tem tantos seguranças. Nem se deu ao trabalho de perguntar. Tinham arranjado um carro pra ele. Placa fria e tudo mais. Tava tudo certo. Ele já sabia até aonde ia levá-la.
Parou na esquina em que eles iam se encontrar. Ela chegou e entrou no carro. Vamos? Ela beijou a boca dele antes de perguntar. Aqueles lábios grossos e maravilhosos. Quase dá pena. Tem certeza que nenhum dos brutamontes te seguiu? Tenho, relaxa, você acha que eu ia dar essa bandeira? Se eles virem eles vão falar pra minha mãe. Ele ia ficar puto. Ta certo, vamos então. Ele dirige por uns dez minutos, prestando atenção pra ver se eles não estão sendo seguidos. Nada. Ótimo. Ele abre a janela e acende um cigarro. E começa a se dirigir para o lugar que ele tinha pensado. Ela nem repara a mudança de rumo. Está animada demais falando sobre alguma coisa que ele não está ouvindo e cantando as músicas que estão tocando. Ele ri e concorda com qualquer coisa de vez em quando. Eles chegam. O lugar é completamente isolado. Alguns quilômetros da rodovia. Pra evitar qualquer desconfiança, ele falou que eles estavam indo para um rave particular no sitio de um amigo dele. Ele tira os pacotes do bolso e entrega pra ela. Vamos lá pra fora, cheira no capô. Ela continua rindo e falando alguma coisa. Parece que ela fala até quando respira. Ela se abaixa. Ele tira a arma das costas. Ela vai pra segunda carreira. Ele pensa melhor e guarda a pistola. Ela olha para ele e ri. Ele ri de volta. Você num vai? Vou, só deixa eu pegar um negócio aqui. Abre a porta luvas e tira uma faca. Enquanto ela abaixa pela terceira vez. Ele faz isso rápido o suficiente pra conseguir enfiar a faca no meio da cabeça dela enquanto ela ainda estava abaixada. Ele limpa o cabo da faca. Limpa as impressões digitais que ele pode ter deixado no carro enquanto ela acaba de agonizar no chão. Ele vai queimar tudo, mas nunca é demais ser cuidadoso. Joga ela dentro do porta mala, logo depois de tirar o galão de gasolina. Ele ensopa ela e o carro inteiro. Mas principalmente ela. Acende um fósforo e joga de longe. Ele vai a pé até a estrada de asfalto e espera a carona. O cara chega. Ele entra no carro. E tira o tênis 3 números maior que ele estava usando. Nunca é demais ser cuidadoso. Eles levaram o tênis que ele pediu. Ele fala pra eles se livarem daquele tênis, só por precaução, mas que estava tudo bem. Eles riem, agradecem. Pagam, todos pagam. E largam ele no hotel. Ele olha a fachada do hotel, olha pro lado. Pensa em ir procurar a Sabrina. Mas desiste. Já era muito tarde.
Chega ai amigo, quer meter hoje? Tem 30 meninas lá dentro, chega ai. 10 reais e eu te dou uma cerveja e uma capirinha. Qual cerveja? Skol. Ta certo. Mas não precisa mentir que eu sei que não tem 30 meninas lá dentro. Têm sim, é que tem algumas que tão no quarto, ai vai parecer que tem um pouco menos.
Mentira.
Ele entra sabendo que não vai tomar a caipirinha, porque caipirinha de puteiro é horrível. Aqui na Augusta pelo menos. Pega a cerveja com o barman com cara de poucos amigos.
Conheci um barman de puteiro uma vez que namorava uma das meninas. Ele falava que entendia e tudo mais, que ele tinha conhecido ela assim, que ele não tinha grana também e não podia fazer nada. Tinha que aceitar. Ficava com cara de bosta toda noite, o que pra mim só prova que ele, na verdade, se importava. Aí eu paguei pra comer a namorada dele uma vez, só pra ver se eu tava certo. É, eu tava. Ele veio irado pra cima de mim falando que eu era amigo dele, que eu não tinha direito de fazer isso. Ao que eu respondi: “Mas eu paguei !”. Depois disso ele nunca mais falou comigo. Mas eu também não me esforcei. Isso foi pouco antes de eu vir pra São Paulo, eu só vi ele mais umas duas vezes antes de mudar pra cá.
Senta-se num dos sofás do lugar e olha em volta pra ver se acha alguma coisa. Ele acha. Loira tingida, mas com uma bunda e uma barriga fenomenais. Coxas tão grossas que pareciam que podiam matar ele. Meio feia de rosto e bastante sem peito. Mas pra um relacionamento de meia hora tava ótimo.
Quanto é o programa? Cem reais mais o quarto. Nem fudendo, muito caro. Pago cinqüenta mais o quarto. Setenta, gatinho, nem um centavo a menos. Fechado.
Ele foi até o balcão com ela pra pagar pro “caixa”. Ela ficou passando a mão no pau dele por fora da calça. Ele olhou pra ela com um olhar meio indefinido. Algo entre “você não quer parar?” e “até que está gostoso”. Levou ela pro quarto. Tirou a pouca roupa dela antes de perguntar o nome. Sabrina. Ela tinha pegado uma camisinha com o cara que marcava o tempo dos quartos no corredor atrás da boate. Colocou pra ele, logo depois de ele ter tirado a roupa e deitado na cama. Ela subiu em cima dele e começou a cavalgar, gemendo da maneira menos falsa que conseguia. Ela não era muito boa nessa parte. Ele girou, a colocou por baixo e deu um beijo na boca dela. Bem, já que eu estou aqui eu posso muito bem fazer isso direito. Pelo menos ela não vai ficar gemendo desse jeito falso no meu ouvido. Ele se esforçou, de fato, mas não são bem assim que as coisas funcionam. Ele não foi o pior da noite, na verdade foi o melhor. Os outros foram dois moleques de 18 anos que gozaram rápido demais e um outro cara, de uns 40 anos, casado. Péssimo. Mas mesmo assim ele não a fez realmente sentir prazer. E saiu sabendo disso.
Certo. Agora eu tenho uma hora e 15 minutos pra chegar aonde eu preciso, pegar a vagabundinha, levar ela pra um lugar deserto, e dar um tiro na nuca dela enquanto ela estiver abaixada cheirando a cocaína, a junkiezinha. Sem problema.
Ele não sabia por que ia matar ela. Só mostraram quem ela era. Ele a seguiu por um tempo. Muitos seguranças. Sempre. Muitas câmeras. Sempre. Ele só viu um jeito de conseguir ficar com ela sozinha. Se ela mesmo fugisse dos seguranças. Ficou com ela uma noite, depois outra. Descobriu que ela gostava de cocaína. Ai foi só falar que ele tinha pros dois, pra eles cheirarem antes de ir pra balada. Ela nunca viu ele cheirando, exatamente porque ele parou, desde que ele começou a matar ele não precisa mais disso, mas ele falou que era porque ele não gostava de cheirar no meio da festa. A desculpa caiu como uma luva pro que ele queria. O nome dela era Vivian. Ele não sabe nem porque ela tem tantos seguranças. Nem se deu ao trabalho de perguntar. Tinham arranjado um carro pra ele. Placa fria e tudo mais. Tava tudo certo. Ele já sabia até aonde ia levá-la.
Parou na esquina em que eles iam se encontrar. Ela chegou e entrou no carro. Vamos? Ela beijou a boca dele antes de perguntar. Aqueles lábios grossos e maravilhosos. Quase dá pena. Tem certeza que nenhum dos brutamontes te seguiu? Tenho, relaxa, você acha que eu ia dar essa bandeira? Se eles virem eles vão falar pra minha mãe. Ele ia ficar puto. Ta certo, vamos então. Ele dirige por uns dez minutos, prestando atenção pra ver se eles não estão sendo seguidos. Nada. Ótimo. Ele abre a janela e acende um cigarro. E começa a se dirigir para o lugar que ele tinha pensado. Ela nem repara a mudança de rumo. Está animada demais falando sobre alguma coisa que ele não está ouvindo e cantando as músicas que estão tocando. Ele ri e concorda com qualquer coisa de vez em quando. Eles chegam. O lugar é completamente isolado. Alguns quilômetros da rodovia. Pra evitar qualquer desconfiança, ele falou que eles estavam indo para um rave particular no sitio de um amigo dele. Ele tira os pacotes do bolso e entrega pra ela. Vamos lá pra fora, cheira no capô. Ela continua rindo e falando alguma coisa. Parece que ela fala até quando respira. Ela se abaixa. Ele tira a arma das costas. Ela vai pra segunda carreira. Ele pensa melhor e guarda a pistola. Ela olha para ele e ri. Ele ri de volta. Você num vai? Vou, só deixa eu pegar um negócio aqui. Abre a porta luvas e tira uma faca. Enquanto ela abaixa pela terceira vez. Ele faz isso rápido o suficiente pra conseguir enfiar a faca no meio da cabeça dela enquanto ela ainda estava abaixada. Ele limpa o cabo da faca. Limpa as impressões digitais que ele pode ter deixado no carro enquanto ela acaba de agonizar no chão. Ele vai queimar tudo, mas nunca é demais ser cuidadoso. Joga ela dentro do porta mala, logo depois de tirar o galão de gasolina. Ele ensopa ela e o carro inteiro. Mas principalmente ela. Acende um fósforo e joga de longe. Ele vai a pé até a estrada de asfalto e espera a carona. O cara chega. Ele entra no carro. E tira o tênis 3 números maior que ele estava usando. Nunca é demais ser cuidadoso. Eles levaram o tênis que ele pediu. Ele fala pra eles se livarem daquele tênis, só por precaução, mas que estava tudo bem. Eles riem, agradecem. Pagam, todos pagam. E largam ele no hotel. Ele olha a fachada do hotel, olha pro lado. Pensa em ir procurar a Sabrina. Mas desiste. Já era muito tarde.
terça-feira, 5 de maio de 2009
Quincas
- Oi
- Oi, tudo certo?
- Tudo, e com você?
- Tudo certo.
- E ai, aonde a gente vai?
- Num sei ainda. Mas vamos rodando mesmo assim.
- Certo, você que sabe. Mas acho que isso é desperdiçar gasolina.
- Não vai falar das reservas mundiais de petróleo acabando e do efeito estufa também?
- Não ia, mas já que você comentou, é verdade.
- E além de pouco me importar, meu carro é a álcool.
- Tudo bem, o direito de pouco se importar é todo o seu, mas a sua indiferença não diminui os danos que você está causando ao seu bolso e a natureza e também não justifica essa velocidade toda. A gente nem sabe pra onde ta indo. Desacelera ai, vai.
- And we are gonna ride fast going nowhere...
- Hein?
- Uma música. Trecho de uma música que eu gosto e que me lembra bastante a cidade de onde eu vim.
- Você não é daqui?
- Não. Caramba, é a quarta vez que a gente sai e você não sabia disso?
- Você não tem sotaque e parece conhecer bem as ruas da cidade. Assumi que você era daqui mesmo.
- É que eu já moro aqui faz um tempinho. E o sotaque eu nunca tive mesmo, porque eu mudei muito.
- E quando você se refere a cidade de onde você veio, é a cidade que você adotou como lar?
- Mais ou menos, é onde eu tive minha primeira namorada, onde eu perdi minha virgindade, onde eu dirigi um carro pela primeira vez, onde eu ganhei a maior parte dos meus vícios e das minhas manias.
- Como, por exemplo, dirigir rápido desse jeito.
- Não, essa mania eu peguei aqui mesmo.
- Com todo o trânsito de São Paulo você ainda pegou mania de dirigir rápido. Eu acho que isso é mais uma manifestação de uma necessidade sua do que uma influência do meio.
- A gente tinha concordado que você não ia me analisar. Se eu quisesse um psicólogo eu pagaria por um, não namoraria uma.
- A gente não ta namorando, benzinho.
- Modo de falar. Você preferia que falasse que eu não pegaria uma ou invés de namoraria.
- Existem outros termos, sabia?
- Eu sei, mas nenhum se encaixava tão bem.
- Você não está escrevendo um título para um anúncio, não precisa se preocupar tanto assim com isso.
- Você fica analisando as pessoas e eu não posso colocar um ritmo decente nas minhas frases?
- Pára aqui.
- Aqui?
- É, a gente passou por um restaurante que parece bom.
- Eu dou a volta.
- Que dia você vai viajar?
- Depois de amanhã.
- Volta quando?
- Já ta ficando com saudade, é?
- Engraçadinho. Não, é só curiosidade mesmo.
- Admite que você ta cada vez mais apaixonada por mim.
- Você se acha, né?
- Na verdade é só um mecanismo de defesa.
- Mecanismo de defesa? Agora virou psicólogo também? Mecanismo de defesa do que?
- Timidez. Tem gente que faz piada, eu finjo que sou fodão.
- Você não é tímido.
- Claro que sou. Sempre fui. Eu era daqueles nerds que passava o dia inteiro ouvindo metal e qualquer outra coisa que quase ninguém mais que eu conhecia ouvia. E que ficava parado nos cantos na festa com mais um amigo nerd, festas as quais eu só era convidado por educação, reclamando da música e não pegando ninguém.
- Não pegando ninguém? Olha só, que inesperado.
- Odiei o tom de ironia na frase.
- Vai, você realmente não tem a mínima cara de ter sido o pegador da oitava série. Agora para de reclamar e estaciona o carro.
- Relaxa, vou deixar com o manobrista mesmo. E como assim eu não tenho cara de ter sido o pegador da oitava série? Qual o problema de eu ter sido o pegador da oitava série?
- Geralmente os pegadores da oitava série não tiveram Alexandre Dumas como parte fundamental da formação, como você mesmo já disse.
- Eu te falei isso?
- Falou, não lembra?
- Não, não lembro.
- É mentira?
- Não, não é. Mas eu não me lembro de ter te falado isso, e nem acho que eu deveria ter falado. Oi. Mesa pra dois.
- Claro que deveria ter falado, eu não teria ficado com você se você não tivesse falado. Eu ia achar que você era mais um babaca que era pegador na oitava série.
- E qual o problema, portanto, de eu ser tímido.
- Nenhum, mas simplesmente parece que você já superou o trauma e, no entanto, fica usando ele como desculpa pra poder se achar fodão.
- Certo, e você? Seus peitos ainda não tinham crescido o suficiente na oitava série?
- Não, nada disso. Eu sempre fui gostosa e popular.
- Certo então a menina gostosa da oitava série veio a conhecer e gostar de jazz e literatura por quê?
- Porque meu pai gostava de jazz e literatura e eu claramente sofri de um complexo de Édipo mal resolvido até eu começar a terapia. E então, só depois da terapia, eu decidi virar psicóloga.
- Nossa. Você é psicologicamente mais fodida do que eu.
- Finalmente encontrou um par á altura?
- Eu acho que sim. Quer escolher o vinho?
- Oi, tudo certo?
- Tudo, e com você?
- Tudo certo.
- E ai, aonde a gente vai?
- Num sei ainda. Mas vamos rodando mesmo assim.
- Certo, você que sabe. Mas acho que isso é desperdiçar gasolina.
- Não vai falar das reservas mundiais de petróleo acabando e do efeito estufa também?
- Não ia, mas já que você comentou, é verdade.
- E além de pouco me importar, meu carro é a álcool.
- Tudo bem, o direito de pouco se importar é todo o seu, mas a sua indiferença não diminui os danos que você está causando ao seu bolso e a natureza e também não justifica essa velocidade toda. A gente nem sabe pra onde ta indo. Desacelera ai, vai.
- And we are gonna ride fast going nowhere...
- Hein?
- Uma música. Trecho de uma música que eu gosto e que me lembra bastante a cidade de onde eu vim.
- Você não é daqui?
- Não. Caramba, é a quarta vez que a gente sai e você não sabia disso?
- Você não tem sotaque e parece conhecer bem as ruas da cidade. Assumi que você era daqui mesmo.
- É que eu já moro aqui faz um tempinho. E o sotaque eu nunca tive mesmo, porque eu mudei muito.
- E quando você se refere a cidade de onde você veio, é a cidade que você adotou como lar?
- Mais ou menos, é onde eu tive minha primeira namorada, onde eu perdi minha virgindade, onde eu dirigi um carro pela primeira vez, onde eu ganhei a maior parte dos meus vícios e das minhas manias.
- Como, por exemplo, dirigir rápido desse jeito.
- Não, essa mania eu peguei aqui mesmo.
- Com todo o trânsito de São Paulo você ainda pegou mania de dirigir rápido. Eu acho que isso é mais uma manifestação de uma necessidade sua do que uma influência do meio.
- A gente tinha concordado que você não ia me analisar. Se eu quisesse um psicólogo eu pagaria por um, não namoraria uma.
- A gente não ta namorando, benzinho.
- Modo de falar. Você preferia que falasse que eu não pegaria uma ou invés de namoraria.
- Existem outros termos, sabia?
- Eu sei, mas nenhum se encaixava tão bem.
- Você não está escrevendo um título para um anúncio, não precisa se preocupar tanto assim com isso.
- Você fica analisando as pessoas e eu não posso colocar um ritmo decente nas minhas frases?
- Pára aqui.
- Aqui?
- É, a gente passou por um restaurante que parece bom.
- Eu dou a volta.
- Que dia você vai viajar?
- Depois de amanhã.
- Volta quando?
- Já ta ficando com saudade, é?
- Engraçadinho. Não, é só curiosidade mesmo.
- Admite que você ta cada vez mais apaixonada por mim.
- Você se acha, né?
- Na verdade é só um mecanismo de defesa.
- Mecanismo de defesa? Agora virou psicólogo também? Mecanismo de defesa do que?
- Timidez. Tem gente que faz piada, eu finjo que sou fodão.
- Você não é tímido.
- Claro que sou. Sempre fui. Eu era daqueles nerds que passava o dia inteiro ouvindo metal e qualquer outra coisa que quase ninguém mais que eu conhecia ouvia. E que ficava parado nos cantos na festa com mais um amigo nerd, festas as quais eu só era convidado por educação, reclamando da música e não pegando ninguém.
- Não pegando ninguém? Olha só, que inesperado.
- Odiei o tom de ironia na frase.
- Vai, você realmente não tem a mínima cara de ter sido o pegador da oitava série. Agora para de reclamar e estaciona o carro.
- Relaxa, vou deixar com o manobrista mesmo. E como assim eu não tenho cara de ter sido o pegador da oitava série? Qual o problema de eu ter sido o pegador da oitava série?
- Geralmente os pegadores da oitava série não tiveram Alexandre Dumas como parte fundamental da formação, como você mesmo já disse.
- Eu te falei isso?
- Falou, não lembra?
- Não, não lembro.
- É mentira?
- Não, não é. Mas eu não me lembro de ter te falado isso, e nem acho que eu deveria ter falado. Oi. Mesa pra dois.
- Claro que deveria ter falado, eu não teria ficado com você se você não tivesse falado. Eu ia achar que você era mais um babaca que era pegador na oitava série.
- E qual o problema, portanto, de eu ser tímido.
- Nenhum, mas simplesmente parece que você já superou o trauma e, no entanto, fica usando ele como desculpa pra poder se achar fodão.
- Certo, e você? Seus peitos ainda não tinham crescido o suficiente na oitava série?
- Não, nada disso. Eu sempre fui gostosa e popular.
- Certo então a menina gostosa da oitava série veio a conhecer e gostar de jazz e literatura por quê?
- Porque meu pai gostava de jazz e literatura e eu claramente sofri de um complexo de Édipo mal resolvido até eu começar a terapia. E então, só depois da terapia, eu decidi virar psicóloga.
- Nossa. Você é psicologicamente mais fodida do que eu.
- Finalmente encontrou um par á altura?
- Eu acho que sim. Quer escolher o vinho?
terça-feira, 21 de abril de 2009
Patricia
Restavam apenas cinco pessoas na festa. Horas atrás, havia sido um evento que muitos descreveriam como memorável. Agora, era apenas um punhado de copos vazios e mais alguns com um resto da bebida, agora escassa, que suavizara as preocupações dos convidados daquela noite.
Os cinco se sentaram em volta de uma única mesa. Olharam-se sem saber o que dizer. Não eram íntimos entre si. Conheciam a anfitriã, mas haviam apenas se esbarrado nos lugares comuns que frequentavam. Somente se encontravam na mesma mesa uma vez por ano, e por poucos minutos.
A anfitriã era uma mulher com um gosto impecável. Culta e reservada, descrevia a si mesmo como uma mulher de vícios saudáveis. De fato, seu maior vício é a saúde em si. Não a dela, mas a de seus amantes. Pelo menos aparentemente saudáveis. Músculos bem trabalhados, mas não exagerados. Pele ainda firme nos ossos. No mínimo 20 anos mais novos que ela. Afinal, era sua filosofia que a velhice era uma doença. Uma doença que deveria ser evitada a qualquer custo. Então, a cada ano que passava, mais ela precisava sentir-se nova. Mais ela precisava fugir de tudo que parecesse um sinal de envelhecimento. Posses, marido, filhos. Até cargos elevados em companhias. Vivia uma vida de constante extravagância, procurando sempre evitar as preocupações com a vida. Começava negócios inovadores, somente para vende-los quando eles começavam a dar certo. Felizmente, sua reputação de mulher de negócios genial não pode sofreu com sua ânsia, e o dinheiro vinha fácil e suas empreitadas a rendiam cada vez mais a cada venda que ela fazia.
Naquela noite, dos quatro que restavam, fora ela, três viviam de maneira bastante parecida com o estilo de vida da anfitriã. Eram amigos antigos, mas o tempo não havia envelhecido a amizade como a um bom vinho, ou um whisky em uma barril de carvalho. O tempo havia jogado eles em direções opostas e, não fosse o esforço da anfitriã, eles nunca mais se veriam. Anualmente, ela fazia uma festa de aniversário melhor que a do ano anterior. Gostava de comemorar sua vitória sobre o tempo. E chamava todos os seus conhecidos. A cada ano a festa era maior, e a todo ano sobravam sempre os mesmos quatro na mesa final. Esse ano específico, um novo sobrevivente se juntava a mesa. Era jovem e nossa anfitriã havia se apaixonado pelo mistério atrás de seus olhos.
Então, deixem-me apresentar meu novo amigo. Meus queridos, esse é o Rodrigo. Rodrigo, esta é a Marta, aquele é o Zacarias, e por fim, o Ulisses.
Todos na mesa fizeram acenos de cabeça. Xavier terminou seu copo de whisky e se levantou.
Mais um ano, mais uma vez deixo vocês a sua sorte. Até ano que vem. Patrícia, sempre um prazer.
E Zacarias pouco depois seguiu o exemplo de Ulisses. Ignorante ao fato de que o seu maior motivo para abandonar a festa estava exatamente em sua frente. Marta, por fim, levantou-se. Despediu-se de Rodrigo, e pediu para Patricia acompanha-la até a porta. No caminho, quando se sentiu segura dos ouvidos de Rodrigo, aconselhou a amiga a tomar cuidado. Não desaprovava a atitude dela em relação aos seus acompanhantes, mas queria ter certeza de que ela não se envolveria emocionalmente.
Tarde demais, amiga. Eu já amo ele. E eu sei que ele vai me magoar, mas eu vou aproveitar tudo que ele puder me oferecer até lá. Chorar quando ele for embora. E depois achar outro. Mas não me fale para não amar, porque amar é tudo que eu tenho.
Apesar de Marta ter achado todo o discurso sentimental demais, faltava a vontade de discutir naquele horário. Ela que fizesse o que preferisse. Patricia voltou até a mesa, puxou Rodrigo pela mão e o levou até o quarto. Era hora de mergulhar na sua fonte de juventude.
Os cinco se sentaram em volta de uma única mesa. Olharam-se sem saber o que dizer. Não eram íntimos entre si. Conheciam a anfitriã, mas haviam apenas se esbarrado nos lugares comuns que frequentavam. Somente se encontravam na mesma mesa uma vez por ano, e por poucos minutos.
A anfitriã era uma mulher com um gosto impecável. Culta e reservada, descrevia a si mesmo como uma mulher de vícios saudáveis. De fato, seu maior vício é a saúde em si. Não a dela, mas a de seus amantes. Pelo menos aparentemente saudáveis. Músculos bem trabalhados, mas não exagerados. Pele ainda firme nos ossos. No mínimo 20 anos mais novos que ela. Afinal, era sua filosofia que a velhice era uma doença. Uma doença que deveria ser evitada a qualquer custo. Então, a cada ano que passava, mais ela precisava sentir-se nova. Mais ela precisava fugir de tudo que parecesse um sinal de envelhecimento. Posses, marido, filhos. Até cargos elevados em companhias. Vivia uma vida de constante extravagância, procurando sempre evitar as preocupações com a vida. Começava negócios inovadores, somente para vende-los quando eles começavam a dar certo. Felizmente, sua reputação de mulher de negócios genial não pode sofreu com sua ânsia, e o dinheiro vinha fácil e suas empreitadas a rendiam cada vez mais a cada venda que ela fazia.
Naquela noite, dos quatro que restavam, fora ela, três viviam de maneira bastante parecida com o estilo de vida da anfitriã. Eram amigos antigos, mas o tempo não havia envelhecido a amizade como a um bom vinho, ou um whisky em uma barril de carvalho. O tempo havia jogado eles em direções opostas e, não fosse o esforço da anfitriã, eles nunca mais se veriam. Anualmente, ela fazia uma festa de aniversário melhor que a do ano anterior. Gostava de comemorar sua vitória sobre o tempo. E chamava todos os seus conhecidos. A cada ano a festa era maior, e a todo ano sobravam sempre os mesmos quatro na mesa final. Esse ano específico, um novo sobrevivente se juntava a mesa. Era jovem e nossa anfitriã havia se apaixonado pelo mistério atrás de seus olhos.
Então, deixem-me apresentar meu novo amigo. Meus queridos, esse é o Rodrigo. Rodrigo, esta é a Marta, aquele é o Zacarias, e por fim, o Ulisses.
Todos na mesa fizeram acenos de cabeça. Xavier terminou seu copo de whisky e se levantou.
Mais um ano, mais uma vez deixo vocês a sua sorte. Até ano que vem. Patrícia, sempre um prazer.
E Zacarias pouco depois seguiu o exemplo de Ulisses. Ignorante ao fato de que o seu maior motivo para abandonar a festa estava exatamente em sua frente. Marta, por fim, levantou-se. Despediu-se de Rodrigo, e pediu para Patricia acompanha-la até a porta. No caminho, quando se sentiu segura dos ouvidos de Rodrigo, aconselhou a amiga a tomar cuidado. Não desaprovava a atitude dela em relação aos seus acompanhantes, mas queria ter certeza de que ela não se envolveria emocionalmente.
Tarde demais, amiga. Eu já amo ele. E eu sei que ele vai me magoar, mas eu vou aproveitar tudo que ele puder me oferecer até lá. Chorar quando ele for embora. E depois achar outro. Mas não me fale para não amar, porque amar é tudo que eu tenho.
Apesar de Marta ter achado todo o discurso sentimental demais, faltava a vontade de discutir naquele horário. Ela que fizesse o que preferisse. Patricia voltou até a mesa, puxou Rodrigo pela mão e o levou até o quarto. Era hora de mergulhar na sua fonte de juventude.
domingo, 15 de fevereiro de 2009
Oswaldo
Ele andou pelo quarto olhando para as paredes. Abriu a porta do armário, e depois a gaveta na qual ele quase nunca mexia. Puxou um álbum de fotografias. Antigas, naturalmente. Afinal, não são antigos todos os álbuns? Pessoas que sumiram da vida dele sem deixar vestígios. Por distância, por rancor, por morte. O mais triste de todos os motivos, ele achava, era o da insignificância. Porque essas pessoas estavam lá? Era bom o sentimento de que elas se importavam, ao menos na época das fotografias, no entanto. O sentimento realmente bom era ver pessoas que haviam perdurado até aquela data. Que por uma série de motivos haviam se mantido bravamente em sua vida.
Mas ele não se focava nessas pessoas enquanto passava o álbum, apesar de serem elas o motivo pelo qual ele ainda aguentava vê-lo. Outras pessoas que haviam sumido e seus motivos específicos o atraiam mais naquela tarde ensolarada, que deveria estar nublada fosse o mundo um filme. Uma delas era sua primeira namorada. Motivo de tantas brigas e de tantas mudanças em sua vida. Brigas não apenas conjugais que se espalharam por outras áreas de sua vida. E que vieram a gerar o término daquela primeira tentativa de amor. Não que de fato, sob todos os julgamentos pelas pessoas de fora, aquilo não passasse de um mero treino. E não que essas pessoas todas não estivessem perfeitamente certas quanto ao destino do relacionamento. Mas pra ele, na época, aquilo era real. Como os melhores treinos deveriam ser. E aquilo realmente havia feito ele crescer de diversas maneiras. Havia ensinado a ele como aguentar a decepção e a rejeição, mesmo que a duras penas.
A outra era seu amigo, Emílio. A maneira como as coisas haviam acontecido o incomodava. E ele pretendia resolver tudo. Descobrir exatamente como tudo ocorrera. Apesar do simples pensamento sobre o assunto o angustiar de uma maneira que ele classificaria como “indescritível”.
Foda-se. Ele se levantou, jogou o álbum em cima da mesa e saiu de casa. Tinha um encontro ao qual não podia mais faltar.
Mas ele não se focava nessas pessoas enquanto passava o álbum, apesar de serem elas o motivo pelo qual ele ainda aguentava vê-lo. Outras pessoas que haviam sumido e seus motivos específicos o atraiam mais naquela tarde ensolarada, que deveria estar nublada fosse o mundo um filme. Uma delas era sua primeira namorada. Motivo de tantas brigas e de tantas mudanças em sua vida. Brigas não apenas conjugais que se espalharam por outras áreas de sua vida. E que vieram a gerar o término daquela primeira tentativa de amor. Não que de fato, sob todos os julgamentos pelas pessoas de fora, aquilo não passasse de um mero treino. E não que essas pessoas todas não estivessem perfeitamente certas quanto ao destino do relacionamento. Mas pra ele, na época, aquilo era real. Como os melhores treinos deveriam ser. E aquilo realmente havia feito ele crescer de diversas maneiras. Havia ensinado a ele como aguentar a decepção e a rejeição, mesmo que a duras penas.
A outra era seu amigo, Emílio. A maneira como as coisas haviam acontecido o incomodava. E ele pretendia resolver tudo. Descobrir exatamente como tudo ocorrera. Apesar do simples pensamento sobre o assunto o angustiar de uma maneira que ele classificaria como “indescritível”.
Foda-se. Ele se levantou, jogou o álbum em cima da mesa e saiu de casa. Tinha um encontro ao qual não podia mais faltar.
segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009
Natália
Como assim você tem medo de fantasma?
Qual o problema? Muita gente tem.
Mas você é ateu! Você não acredita em deus! Como você pode não acreditar em deus e ter medo de fantasma?
Se você for pensar bem, não é tão absurdo assim.
Como não?
Você só faz essa ligação porque você é uma católica perdendo a fé.
Não fala da minha fé.
Pensa bem, você não deveria acreditar em fantasma...
Eu não acredito.
Eu sei, é esse o ponto...
Que ponto?
Me deixa falar?
Não.
Se você acreditasse em deus como você acreditava antes você não ia comparar ele com uma coisa que você não acredita.
Pronto? Vai calar a boca?
Existem métodos mais eficientes de calar minha boca do que pedir.
Ela beijou ele. As luzes apagadas do quarto mantiveram as lágrimas dela invisíveis. Mas o gosto salgado ainda chegou a boca dele. E ele soube. Deus ficava um pouco mais longe a cada dia que passava desde que o Emílio morrera. Eles transaram enquanto ele pensava que já era hora de dar um fora nela. Apesar da dor ainda estar lá, o desespero de descobrir quem tinha matado o noivo já tinha passado. Já eram dois favores que ele ia poder cobrar do “Rodrigo”. Tirar a Natália do caminho e salvar a vida dele. Ele pensou também no que ele iria pedir. E deu uma leve passada pela questão ética da coisa. Mas ele tinha aprendido a não julgar as pessoas, e decidiu que era hora de não se julgar. Ele também merecia isso.
Ele foi embora e ela ficou deitada na cama. Levantou algumas horas depois e olhou para o céu. Teria visto estrelas se o céu de São Paulo permitisse. E pensou que talvez ela não visse mais deus pelo mesmo motivo. O céu daquela cidade não permitia. Aquilo sufocava ela. Algumas pessoas nasceram pra viver naquela cidade. Ela não. Ela queria uma casinha no campo. Mas tinha ficado por causa do Emílio. Ele adorava o asfalto. Adorava a velocidade com a qual o mundo girava. E ela se sentia mal por achar que ele não conseguia mais sentir o mundo girar. E ela sentia o mundo girar. E ela queria que aquilo parasse. E se lembrava de um poema. Quando Ismália enlouqueceu pôs se na torre a cantar. Queria subir ao céu. Queria descer ao mar. Ela queria descer ao mar. Pegou o elevador. E depois o carro. E depois a estrada. E só parou quando ela chegou ao mar. Deitou-se na areia, ainda a tempo de ver as estrelas. De tentar ouvi-las. Tantos poemas que ela não tinha realmente entendido. Tantas planilhas que ela queria já ter esquecido. E o barulho do mar fazia o mundo parar de rodar. E o sol nasceu e secou as lágrimas do rosto dela.
Levantou-se e foi para o carro. Se registrou em uma pousada e tomou um banho. Hoje ela não iria trabalhar. Alias, ela nunca mais iria trabalhar. Não com planilhas. Não com o mundo que girava tão rápido que tinha jogado seu noivo pela tangente. Pra um lugar que ela não mais acreditava que existia. E no qual ela nunca mais poderia entrar. Ela foi em uma imobiliária e comprou um apartamento. E foi no banco e transferiu a sua conta. E passou o dia seguinte no telefone. Demissão, cancelamento de assinaturas. Morrer para a uma cidade grande foi mais difícil do que ela imaginara. Ela nunca mais voltou.
Camilo ligou diversas vezes para ela. O celular tocou incessantemente. Até que ele começou a dar caixa de mensagem. Ele passou lá. Queria confirmar se ela estava bem. O porteiro não sabia de nada. Ele passou em casa. Pegou a .22. Entrou no hotel da rua augusta e subiu direto para o quarto do “Rodrigo”. Bateu na porta. Nada. Nessa hora ele sorriu. Tirou a chave que ele tinha mandado fazer para aquela porta. Aprender a não julgar não significa não tomar precauções. Lembrou da música do Metallica. To secure peace is to prepare for war. Entrou e se sentou na cama, encostada na parede e fora da linha de visão de quem entrava pela porta do quarto. A porta se abriu. Ele se preparou. A arma estava apontada para a cabeça da pessoa que entrara antes de ela perceber que havia outra pessoa. Era uma mulher. Ele não imaginara que mais ninguém teria a chave do quarto. Não esperava que seu amigo fosse confiar assim em alguém. Ela olhava para ele como se pedisse para ele atirar. Mas não de uma maneira ousada. Humildemente.
Quem é você?
Sabrina.
Então você é a Sabrina. Certo. Cadê o Rodrigo?
Não sei. Eu vim encontrar ele. Achei que ele fosse tá aqui também.
Ótimo. Tudo que eu precisava.
Por que você quer matar ele?
Porque ele não confiou em mim. E ele fez uma coisa que ele não devia ter feito.
Camilo andava pelo quarto, ainda apontando a arma. Uma caminhada nervosa. Não era ele ali. Da mesma maneira como não havia sido ele aquele dia. Ele não é um assassino. E ele repetia isso pra ele mesmo quando a porta se abriu novamente. A Sabrina estava na frente, mas ele tinha uma visão ótima. Ainda dava pra atirar.
Camilo.
Rodrigo.
Por que?
Cadê a Natália?
Eu não fiz nada.
Cadê a Natália?
Idiota, eu não fiz nada.
Caralho, Rodrigo, se você não falar agora eu atiro nela.
Se você fizer isso, você morre antes do tambor dessa sua arminha de chumbo girar.
É a única escolha. Você nunca se importou com a sua vida, não adianta eu ameaçar você.
Olha, Camilo, eu ajudo você a procurar. E eu sempre acho quem eu procuro. Eu recebo bem pra isso. E você não é um assassino. Você não é um assassino. Você não precisa se tornar um assassino.
Rodrigo andou pra frente devagar. Tirou Sabrina de sua frente e foi andando cada vez perto de Camilo. Eles foram em um balé lento e tenso até que Rodrigo conseguiu encurrala-lo no canto do quarto. Lentamente esticou a mão e pegou a arma, enquanto lágrimas começavam a descer do rosto de Camilo.
Eu achei que você fosse mais macho que isso.
Eu também.
Eu devia te matar.
Eu sei. Mas você não vai.
E porque isso?
Porque você me deve dois favores.
Eu só te devo um, se você acha que eu matei a Natália.
Ainda sim.
Ainda sim, agora eu não te devo mais nada.
Depende. Eu to de dando o benefício da dúvida. Se eu achar ela, aí eu te devo uma. Senão, eu vou vir cobrar. De verdade.
E eu vou estar esperando.
Camilo saiu do quarto. Rodrigo olhou pra Sabrina. Esquecida pelos dois, ela sentara na cama e olhava pra frente como se estivesse vendo tv. Rodrigo fechou a porta e esperou a pergunta. Não demorou e ela veio.
O que é que você faz?
Eu sou matador. Assassino de aluguel.
Qual o problema? Muita gente tem.
Mas você é ateu! Você não acredita em deus! Como você pode não acreditar em deus e ter medo de fantasma?
Se você for pensar bem, não é tão absurdo assim.
Como não?
Você só faz essa ligação porque você é uma católica perdendo a fé.
Não fala da minha fé.
Pensa bem, você não deveria acreditar em fantasma...
Eu não acredito.
Eu sei, é esse o ponto...
Que ponto?
Me deixa falar?
Não.
Se você acreditasse em deus como você acreditava antes você não ia comparar ele com uma coisa que você não acredita.
Pronto? Vai calar a boca?
Existem métodos mais eficientes de calar minha boca do que pedir.
Ela beijou ele. As luzes apagadas do quarto mantiveram as lágrimas dela invisíveis. Mas o gosto salgado ainda chegou a boca dele. E ele soube. Deus ficava um pouco mais longe a cada dia que passava desde que o Emílio morrera. Eles transaram enquanto ele pensava que já era hora de dar um fora nela. Apesar da dor ainda estar lá, o desespero de descobrir quem tinha matado o noivo já tinha passado. Já eram dois favores que ele ia poder cobrar do “Rodrigo”. Tirar a Natália do caminho e salvar a vida dele. Ele pensou também no que ele iria pedir. E deu uma leve passada pela questão ética da coisa. Mas ele tinha aprendido a não julgar as pessoas, e decidiu que era hora de não se julgar. Ele também merecia isso.
Ele foi embora e ela ficou deitada na cama. Levantou algumas horas depois e olhou para o céu. Teria visto estrelas se o céu de São Paulo permitisse. E pensou que talvez ela não visse mais deus pelo mesmo motivo. O céu daquela cidade não permitia. Aquilo sufocava ela. Algumas pessoas nasceram pra viver naquela cidade. Ela não. Ela queria uma casinha no campo. Mas tinha ficado por causa do Emílio. Ele adorava o asfalto. Adorava a velocidade com a qual o mundo girava. E ela se sentia mal por achar que ele não conseguia mais sentir o mundo girar. E ela sentia o mundo girar. E ela queria que aquilo parasse. E se lembrava de um poema. Quando Ismália enlouqueceu pôs se na torre a cantar. Queria subir ao céu. Queria descer ao mar. Ela queria descer ao mar. Pegou o elevador. E depois o carro. E depois a estrada. E só parou quando ela chegou ao mar. Deitou-se na areia, ainda a tempo de ver as estrelas. De tentar ouvi-las. Tantos poemas que ela não tinha realmente entendido. Tantas planilhas que ela queria já ter esquecido. E o barulho do mar fazia o mundo parar de rodar. E o sol nasceu e secou as lágrimas do rosto dela.
Levantou-se e foi para o carro. Se registrou em uma pousada e tomou um banho. Hoje ela não iria trabalhar. Alias, ela nunca mais iria trabalhar. Não com planilhas. Não com o mundo que girava tão rápido que tinha jogado seu noivo pela tangente. Pra um lugar que ela não mais acreditava que existia. E no qual ela nunca mais poderia entrar. Ela foi em uma imobiliária e comprou um apartamento. E foi no banco e transferiu a sua conta. E passou o dia seguinte no telefone. Demissão, cancelamento de assinaturas. Morrer para a uma cidade grande foi mais difícil do que ela imaginara. Ela nunca mais voltou.
Camilo ligou diversas vezes para ela. O celular tocou incessantemente. Até que ele começou a dar caixa de mensagem. Ele passou lá. Queria confirmar se ela estava bem. O porteiro não sabia de nada. Ele passou em casa. Pegou a .22. Entrou no hotel da rua augusta e subiu direto para o quarto do “Rodrigo”. Bateu na porta. Nada. Nessa hora ele sorriu. Tirou a chave que ele tinha mandado fazer para aquela porta. Aprender a não julgar não significa não tomar precauções. Lembrou da música do Metallica. To secure peace is to prepare for war. Entrou e se sentou na cama, encostada na parede e fora da linha de visão de quem entrava pela porta do quarto. A porta se abriu. Ele se preparou. A arma estava apontada para a cabeça da pessoa que entrara antes de ela perceber que havia outra pessoa. Era uma mulher. Ele não imaginara que mais ninguém teria a chave do quarto. Não esperava que seu amigo fosse confiar assim em alguém. Ela olhava para ele como se pedisse para ele atirar. Mas não de uma maneira ousada. Humildemente.
Quem é você?
Sabrina.
Então você é a Sabrina. Certo. Cadê o Rodrigo?
Não sei. Eu vim encontrar ele. Achei que ele fosse tá aqui também.
Ótimo. Tudo que eu precisava.
Por que você quer matar ele?
Porque ele não confiou em mim. E ele fez uma coisa que ele não devia ter feito.
Camilo andava pelo quarto, ainda apontando a arma. Uma caminhada nervosa. Não era ele ali. Da mesma maneira como não havia sido ele aquele dia. Ele não é um assassino. E ele repetia isso pra ele mesmo quando a porta se abriu novamente. A Sabrina estava na frente, mas ele tinha uma visão ótima. Ainda dava pra atirar.
Camilo.
Rodrigo.
Por que?
Cadê a Natália?
Eu não fiz nada.
Cadê a Natália?
Idiota, eu não fiz nada.
Caralho, Rodrigo, se você não falar agora eu atiro nela.
Se você fizer isso, você morre antes do tambor dessa sua arminha de chumbo girar.
É a única escolha. Você nunca se importou com a sua vida, não adianta eu ameaçar você.
Olha, Camilo, eu ajudo você a procurar. E eu sempre acho quem eu procuro. Eu recebo bem pra isso. E você não é um assassino. Você não é um assassino. Você não precisa se tornar um assassino.
Rodrigo andou pra frente devagar. Tirou Sabrina de sua frente e foi andando cada vez perto de Camilo. Eles foram em um balé lento e tenso até que Rodrigo conseguiu encurrala-lo no canto do quarto. Lentamente esticou a mão e pegou a arma, enquanto lágrimas começavam a descer do rosto de Camilo.
Eu achei que você fosse mais macho que isso.
Eu também.
Eu devia te matar.
Eu sei. Mas você não vai.
E porque isso?
Porque você me deve dois favores.
Eu só te devo um, se você acha que eu matei a Natália.
Ainda sim.
Ainda sim, agora eu não te devo mais nada.
Depende. Eu to de dando o benefício da dúvida. Se eu achar ela, aí eu te devo uma. Senão, eu vou vir cobrar. De verdade.
E eu vou estar esperando.
Camilo saiu do quarto. Rodrigo olhou pra Sabrina. Esquecida pelos dois, ela sentara na cama e olhava pra frente como se estivesse vendo tv. Rodrigo fechou a porta e esperou a pergunta. Não demorou e ela veio.
O que é que você faz?
Eu sou matador. Assassino de aluguel.
domingo, 25 de janeiro de 2009
Marta
- Sabe, eu não sou tão mulherengo quanto você acha.
- Claro, meu bem, eu sei disso. Eu e as mulheres que eu sei que você pega toda vez que sai. Tá me achando com cara de palhaça?
- Não, e você também não me entendeu. O que eu quis dizer é que eu faço isso porque eu to solteiro. Se eu estivesse em um relacionamento sério eu ficaria só com uma.
- Ô docinho, eu só não tenho um relacionamento sério com você porque eu não acredito nisso. O que nos deixa num círculo vicioso, não?
- É só você confiar em mim um pouco e a gente sai disso.
- Não, fofo, é só você parar com essas promessas que você não pode cumprir que a gente não precisa discutir mais isso.
Ela se levanta da cama redonda e coloca a calcinha enquanto ele olha pra ela com olhar mais inocente que ele consegue colocar na cara. Inútil. Ela o ignora e, mesmo se estivesse prestando atenção, não acredita em inocência.
- Você não me leva a sério
- Não, docinho, não levo.
- Por quê?
Cala a boca, Fábio. Eu não quero discutir com você, caralho. Tenho que ir.
- Claro, meu bem, eu sei disso. Eu e as mulheres que eu sei que você pega toda vez que sai. Tá me achando com cara de palhaça?
- Não, e você também não me entendeu. O que eu quis dizer é que eu faço isso porque eu to solteiro. Se eu estivesse em um relacionamento sério eu ficaria só com uma.
- Ô docinho, eu só não tenho um relacionamento sério com você porque eu não acredito nisso. O que nos deixa num círculo vicioso, não?
- É só você confiar em mim um pouco e a gente sai disso.
- Não, fofo, é só você parar com essas promessas que você não pode cumprir que a gente não precisa discutir mais isso.
Ela se levanta da cama redonda e coloca a calcinha enquanto ele olha pra ela com olhar mais inocente que ele consegue colocar na cara. Inútil. Ela o ignora e, mesmo se estivesse prestando atenção, não acredita em inocência.
- Você não me leva a sério
- Não, docinho, não levo.
- Por quê?
Cala a boca, Fábio. Eu não quero discutir com você, caralho. Tenho que ir.
quinta-feira, 22 de janeiro de 2009
Layla
-Quer saber? faz o que você quiser.
-Não, não é isso.
-Achei que fosse.
-Eu não sei na verdade. Eu não sei de verdade o que eu quero.
-Ai você complica um pouco as coisas. E eu já to de saco cheio. Não quero mais ouvir isso.
-Quer saber a verdade? É só você que eu quero. Faz muito tempo que é só você que eu quero. Mas isso é exatamente o tipo de coisa que não se fala. E eu já tomei demais na cabeça por causa da minha pressa. Da minha necessidade absurda de definição. Da minha posição ridícula de... Foda-se
-O que você quer dizer com isso?
-Tudo que eu queria dizer com uma palavra que eu não quero nunca mais usar na minha vida, moça.
-Eu cheguei atrasada demais pra ter sinceridade?
-Não. Mas talvez você tenha chegado cedo demais para o resto da minha vida.
-Quanto é cedo demais?
-É exatamente isso que eu queria descobrir. E é exatamente por isso que o “talvez” foi usado. Eu não quero me preocupar com isso. Não mais. Não agora. Mas eu quero você. Por todo o tempo que eu quiser você. Tudo que eu quero ouvir é um “foda-se” sincero.
-Não, não é isso.
-Achei que fosse.
-Eu não sei na verdade. Eu não sei de verdade o que eu quero.
-Ai você complica um pouco as coisas. E eu já to de saco cheio. Não quero mais ouvir isso.
-Quer saber a verdade? É só você que eu quero. Faz muito tempo que é só você que eu quero. Mas isso é exatamente o tipo de coisa que não se fala. E eu já tomei demais na cabeça por causa da minha pressa. Da minha necessidade absurda de definição. Da minha posição ridícula de... Foda-se
-O que você quer dizer com isso?
-Tudo que eu queria dizer com uma palavra que eu não quero nunca mais usar na minha vida, moça.
-Eu cheguei atrasada demais pra ter sinceridade?
-Não. Mas talvez você tenha chegado cedo demais para o resto da minha vida.
-Quanto é cedo demais?
-É exatamente isso que eu queria descobrir. E é exatamente por isso que o “talvez” foi usado. Eu não quero me preocupar com isso. Não mais. Não agora. Mas eu quero você. Por todo o tempo que eu quiser você. Tudo que eu quero ouvir é um “foda-se” sincero.
sábado, 10 de janeiro de 2009
Karen
Ela andou pela sala com um pedaço de papel que estava na carteira dele. Ele não se importava que ela mexesse na carteira dele porque, afinal de contas, ela só fazia isso pra organizar mesmo. Coisa que ele não faria nunca se dependesse dele.
Zacarias.
Oi.
Todos esses nomes? O que é?
São só nomes, Karen.
Você não tá escolhendo nome pra bebê?
Não.
Tá escrevendo um livro?
Hein?
Qual o problema?
Eu também não vou plantar uma árvore.
Não entendi.
Relaxa.
Só nome de homem...
Sim.
Por que ?
Porque ele ainda não aprendeu a mentir tão bem.
Ele quem?
Ele.
É um caso?
Engraçado essa ser sua terceira idéia, considerando que eu sou detetive.
Alguem te pagou pra achar essa pessoa?
Não, esse eu to fazendo por um amigo meu.
Quem?
Oswaldo. Ele me pediu por causa de um amigo dele.
E você tá quieto por causa disso.
É.
E isso na minha frente é um pedido pra fazer você esquecer disso.
Pode ser. Não foi proposital, no entanto.
Nunca é. É só uma reação que você tem.
Você diz como se fosse frequente.
É frequente.
Mesmo?
Mais do que você pensa. Eu sei o que fazer quando se trata de você.
Ele riu com o canto da boca. O mesmo sorriso bobo que ele só dá quando está com ela. Ela colocou as pernas em volta dele e depois o braço. Fez isso pelas costas, pra que ele pudesse se acostumar com a presença física dela. Encostou a cabeça nas costas dele e ficou até sentir a respiração dele se aprofundar. Disso pra frente era fácil. Ele era fácil pra ela. E ela gostava disso. E pra ela, as pessoas tem que fazer apenas as coisas que elas gostam. Todo o resto é desperdício de vida. E pouca gente desperdiçou tão pouco a vida quanto ela.
Zacarias.
Oi.
Todos esses nomes? O que é?
São só nomes, Karen.
Você não tá escolhendo nome pra bebê?
Não.
Tá escrevendo um livro?
Hein?
Qual o problema?
Eu também não vou plantar uma árvore.
Não entendi.
Relaxa.
Só nome de homem...
Sim.
Por que ?
Porque ele ainda não aprendeu a mentir tão bem.
Ele quem?
Ele.
É um caso?
Engraçado essa ser sua terceira idéia, considerando que eu sou detetive.
Alguem te pagou pra achar essa pessoa?
Não, esse eu to fazendo por um amigo meu.
Quem?
Oswaldo. Ele me pediu por causa de um amigo dele.
E você tá quieto por causa disso.
É.
E isso na minha frente é um pedido pra fazer você esquecer disso.
Pode ser. Não foi proposital, no entanto.
Nunca é. É só uma reação que você tem.
Você diz como se fosse frequente.
É frequente.
Mesmo?
Mais do que você pensa. Eu sei o que fazer quando se trata de você.
Ele riu com o canto da boca. O mesmo sorriso bobo que ele só dá quando está com ela. Ela colocou as pernas em volta dele e depois o braço. Fez isso pelas costas, pra que ele pudesse se acostumar com a presença física dela. Encostou a cabeça nas costas dele e ficou até sentir a respiração dele se aprofundar. Disso pra frente era fácil. Ele era fácil pra ela. E ela gostava disso. E pra ela, as pessoas tem que fazer apenas as coisas que elas gostam. Todo o resto é desperdício de vida. E pouca gente desperdiçou tão pouco a vida quanto ela.
segunda-feira, 5 de janeiro de 2009
Joana
A luz piscava acelerada e corria pela parede e pelo teto, filtrada em cores e no ritmo da música alta que tocava. Entre os momentos de escuridão, eu vi ela dançando. Nada nunca havia se movido daquela maneira. Meu coração começou a bater tão rápido quanto a caixa do punk que tocava. Ramones.
Depois de anos sem fazer isso era chegada a hora. Era como se eu fosse um adolescente que sai de noite pela primeira vez. Oi, tudo certo? Desculpe a intromissão, eu só queria perguntar seu nome. Afinal, eu nunca vi ninguém dançar assim tão bem. É Joana. Muito prazer, Joana. Eu sorri. Ela parecia uma mulher diferente de perto. Ainda bonita, mas sem todo o charme que a movimentação dava pra ela. O meu é Oswaldo, muito prazer. Eu saí dali pouco depois. Estava me sentindo muito desconfortável. Falta de prática é uma merda. Fui buscar uma bebida e me preparar pra tentar de novo. Pensei na Alice pela primeira vez aquela noite. Acendi um cigarro e me encostei na parede do lugar. Tinha ido com um amigo, que agora estava conversando com uma mulher no canto, e eu não achei que era a hora de interromper ele. Percorri o lugar com meus olhos e encontrei olhos que mereciam ser olhados. Mas que como de costume não estavam voltados pra mim. Auto estima baixa desde o fim do namoro. Abaixei meus olhos e tentei fazer com que o pensamento saísse da minha cabeça. Quando eu levantei meus olhos novamente, os olhos dela estavam voltados para mim. Bastante perto, inclusive. Mé dá um cigarro? Claro, e me desculpe, mas qual o seu nome. Ela pegou o cigarro da minha mão e falou: Joana. Conversamos por dois minutos, eu ainda pensando na coincidência do nome repetido. O lugar era pequeno, não deveriam ter mais do que 200 pessoas lá. 100 Mulheres, considerando uma proporção meio a meio. E Joana não é um nome comum. Eu havia conhecido apenas uma em toda minha vida. E agora, duas numa noite. Foi então que ela me disse que apesar de ter adorado conversar comigo, ela tinha vindo pegar um cigarro pra ir embora fumando. Eu me despedi e fiquei feliz com a conversa. Meu amigo acabava de ser deixado sozinho pela amiga com a qual ele conversava antes. Não era feia, mas também não chamava a atenção. Comentei com o Emílio sobre a amiga e ele apontou outra mulher. Aquela ali vale a pena. Eu fui lá. Qual seu nome? Joana. Eu não acreditava. Achei que era um sinal. Conversei com ela. O resto da noite inteira. Ela me deu o e-mail. Eu fui embora acreditando que as coisas dariam certo. Sem pressa. Até porque haviam especificidades que não merecem ser comentadas que impediam qualquer outra atitude. Uma música na minha cabeça, que ela havia comentado que era a favorita dela do Smiths. Bigmouth Strikes Again. A única coisa que eu posso dizer é que naquele dia eu de fato descobri como Joana D'arc se sentiu quando foi traída, como diz a música citada. Me despedi de Emílio e nunca mais encontrei nenhuma Joana.
Depois de anos sem fazer isso era chegada a hora. Era como se eu fosse um adolescente que sai de noite pela primeira vez. Oi, tudo certo? Desculpe a intromissão, eu só queria perguntar seu nome. Afinal, eu nunca vi ninguém dançar assim tão bem. É Joana. Muito prazer, Joana. Eu sorri. Ela parecia uma mulher diferente de perto. Ainda bonita, mas sem todo o charme que a movimentação dava pra ela. O meu é Oswaldo, muito prazer. Eu saí dali pouco depois. Estava me sentindo muito desconfortável. Falta de prática é uma merda. Fui buscar uma bebida e me preparar pra tentar de novo. Pensei na Alice pela primeira vez aquela noite. Acendi um cigarro e me encostei na parede do lugar. Tinha ido com um amigo, que agora estava conversando com uma mulher no canto, e eu não achei que era a hora de interromper ele. Percorri o lugar com meus olhos e encontrei olhos que mereciam ser olhados. Mas que como de costume não estavam voltados pra mim. Auto estima baixa desde o fim do namoro. Abaixei meus olhos e tentei fazer com que o pensamento saísse da minha cabeça. Quando eu levantei meus olhos novamente, os olhos dela estavam voltados para mim. Bastante perto, inclusive. Mé dá um cigarro? Claro, e me desculpe, mas qual o seu nome. Ela pegou o cigarro da minha mão e falou: Joana. Conversamos por dois minutos, eu ainda pensando na coincidência do nome repetido. O lugar era pequeno, não deveriam ter mais do que 200 pessoas lá. 100 Mulheres, considerando uma proporção meio a meio. E Joana não é um nome comum. Eu havia conhecido apenas uma em toda minha vida. E agora, duas numa noite. Foi então que ela me disse que apesar de ter adorado conversar comigo, ela tinha vindo pegar um cigarro pra ir embora fumando. Eu me despedi e fiquei feliz com a conversa. Meu amigo acabava de ser deixado sozinho pela amiga com a qual ele conversava antes. Não era feia, mas também não chamava a atenção. Comentei com o Emílio sobre a amiga e ele apontou outra mulher. Aquela ali vale a pena. Eu fui lá. Qual seu nome? Joana. Eu não acreditava. Achei que era um sinal. Conversei com ela. O resto da noite inteira. Ela me deu o e-mail. Eu fui embora acreditando que as coisas dariam certo. Sem pressa. Até porque haviam especificidades que não merecem ser comentadas que impediam qualquer outra atitude. Uma música na minha cabeça, que ela havia comentado que era a favorita dela do Smiths. Bigmouth Strikes Again. A única coisa que eu posso dizer é que naquele dia eu de fato descobri como Joana D'arc se sentiu quando foi traída, como diz a música citada. Me despedi de Emílio e nunca mais encontrei nenhuma Joana.
sexta-feira, 26 de dezembro de 2008
Capítulo XIII
Eu sinto que eu me perdi nos meus relatos. E, pior, eu sinto que cada vez mais eles não fazem sentido. Eu sinto falta da Isabel, eu realmente sinto. E já faz um ano e meio que a gente terminou. Eu comecei a escrever isso aqui a mais ou menos uns oito meses. Eu esperei até eu me sentir seguro, até eu ter certeza de que tudo estava acabado, mas agora eu já não sei mais. Eu encontrei ela semana retrasada, num bar. Fazia tempo que eu não a via. Foi forte. Foi foda. Ela tava com a Flávia e mais umas duas amigas que eu nunca conheci direito. Ela sorriu quando me viu. Ela veio me cumprimentar. E foi ela quem me beijou. Sim, sim amigos. E desde então eu não escrevo mais. Eu não sei se tudo isso faz sentido. Eu tenho evitado ligar para ela, mas admito que acabei ligando um dia, só pra conversar. Eu já não entendo qual era o problema, eu já não vejo motivo nenhum para ficar longe dela. E eu reli tudo que foi escrito até agora e eu não acho nenhum motivo concreto tirando uma mísera briga. Meu Deus, será que eu agi mal? Será que foi só um surto momentâneo, que me pareceu como sendo todo um padrão dentro do meu relacionamento. Será que eu falhei em segurar a onda por uma fase passageira. Eu acho que eu só consegui ficar tão longe por tanto tempo graças a crença de que eu estava certo, mas não seria só meu orgulho falando mais alto que a verdade. Eu já não sei mais. Eu não sei, eu não sei. No bar eu estava com o Chef e ele meio que me tirou de lá um tempo depois. O Tobias estava junto também. Mas e se ele não tivesse feito isso? Eu poderia ter ido pra casa com ela, a gente poderia ter transado e tudo poderia ter ficado bem, eu poderia... não sei, ter tido certeza de que eu estava errado. Eu vou ligar pra ela.
PS: Último capítulo de Isabel. Sim, acaba assim mesmo.
PS: Último capítulo de Isabel. Sim, acaba assim mesmo.
domingo, 21 de dezembro de 2008
A mulher perfeita e outras histórias: parte 1
Sábado, aproximadamente seis da tarde. A Isabel tava visitando a mãe, outra que sempre me odiou, e eu estava com o fim de semana livre para ver alguns filmes que eu tava adiando, ler algumas coisas e bater punheta. E esses eram meus planos, feitos com carinho e displicência, como todo bom plano de final de semana. Meus planos são então modificados com um telefonema do Tobias, insistindo que precisava encontrar todo mundo em algum bar, e que tinha pensado no Finnegans, mas que se eu tivesse alguma sugestão melhor a gente poderia repensar. Eu não tinha, então foi lá mesmo. Não que o Finnegans tenha nada de especial, eu só tava com preguiça de pensar.
Eu fui o último a chegar e o Tomás já estava bêbado, nada de especial. Assim que eu cheguei o Tobias começou: “Ótimo, já que estão todos aqui, eu posso fazer o meu anúncio. Eu tenho pensado muito sobre a minha vida e percebi que eu não tenho nenhum objetivo claro que realmente vá me fazer feliz e que não seja ligado a dinheiro. Portanto, eu comecei a pensar nas minhas prioridades e decidi que eu preciso encontrar minha alma gêmea. De agora em diante, todos os meus esforços estarão voltados em encontrar a MULHER PERFEITA”. Nesse momento, eu, o Rafael e o Tomás nos olhamos com o mesmo olhar de estranheza enquanto o Tobias esperava algum comentário com uma cara de satisfação e o Pedro ria como se não houvesse amanhã. Logo o olhar do Tobias se refez para um olhar de estranheza, mas com um motivo diferente do nosso. Ele simplesmente não entendia nem a risada do Pedro, nem a nossa cara. O Tomás então tomou a dianteira. “Bixo, eu admito que eu to bêbado e que meu raciocínio pode estar meio prejudicado e tudo mais, mas essa deve ser das idéias mais estúpidas que eu já ouvi na minha vida. Tipo, sua alma gêmea, beleza, a gente vive pra amar e todo mundo tem uma alma gêmea no mundo, apesar das materialidades nos impedirem de ver isso às vezes, mas esse negócio de mulher perfeita é história pra boi dormir, bixo. Que porra é essa? Todo mundo é perfeito do jeito que é ou todo mundo tem algum defeito, escolhe a sua teoria, mas te garanto que uma das duas ta certa. E não que seja ruim ter encontrado vocês, muito pelo contrario, amo vocês, mas porra Tobias, era essa a urgência? Achei que você ia assumir que era gay, ou que você tava mudando pra Botsuana ou qualquer porra assim”. “Então vocês não acreditam que a mulher perfeita existe?” Ao que o Pedro, parando de rir, respondeu: “ Não, porra nem o Tómas acredita e ele é o que mais sonha daqui. Pra não falar que esse negócio de mulher perfeita, mesmo se existisse, seria relativo, o que a mulher perfeita pra mim pode não ser pra você. O Vitor gosta de morena e eu de loira, e pronto, já fodeu todo o conceito.” “Eu sei que é relativo, inclusive eu já comecei a fazer uma lista de tudo que ela precisa ter”. “Bixo, é uma mulher, não um carro”. O Rafael, que até então tinha mantido a cabeça baixa e a boca fechada, interrompeu o Pedro e falou “Se é isso que você quer mesmo, eu te ajudo”. “Pronto, dois loucos, e você Vitor, compactua com essa putaria?” “Eu namoro com a Isabel, num tenho moral pra falar nada”.
Eu fui o último a chegar e o Tomás já estava bêbado, nada de especial. Assim que eu cheguei o Tobias começou: “Ótimo, já que estão todos aqui, eu posso fazer o meu anúncio. Eu tenho pensado muito sobre a minha vida e percebi que eu não tenho nenhum objetivo claro que realmente vá me fazer feliz e que não seja ligado a dinheiro. Portanto, eu comecei a pensar nas minhas prioridades e decidi que eu preciso encontrar minha alma gêmea. De agora em diante, todos os meus esforços estarão voltados em encontrar a MULHER PERFEITA”. Nesse momento, eu, o Rafael e o Tomás nos olhamos com o mesmo olhar de estranheza enquanto o Tobias esperava algum comentário com uma cara de satisfação e o Pedro ria como se não houvesse amanhã. Logo o olhar do Tobias se refez para um olhar de estranheza, mas com um motivo diferente do nosso. Ele simplesmente não entendia nem a risada do Pedro, nem a nossa cara. O Tomás então tomou a dianteira. “Bixo, eu admito que eu to bêbado e que meu raciocínio pode estar meio prejudicado e tudo mais, mas essa deve ser das idéias mais estúpidas que eu já ouvi na minha vida. Tipo, sua alma gêmea, beleza, a gente vive pra amar e todo mundo tem uma alma gêmea no mundo, apesar das materialidades nos impedirem de ver isso às vezes, mas esse negócio de mulher perfeita é história pra boi dormir, bixo. Que porra é essa? Todo mundo é perfeito do jeito que é ou todo mundo tem algum defeito, escolhe a sua teoria, mas te garanto que uma das duas ta certa. E não que seja ruim ter encontrado vocês, muito pelo contrario, amo vocês, mas porra Tobias, era essa a urgência? Achei que você ia assumir que era gay, ou que você tava mudando pra Botsuana ou qualquer porra assim”. “Então vocês não acreditam que a mulher perfeita existe?” Ao que o Pedro, parando de rir, respondeu: “ Não, porra nem o Tómas acredita e ele é o que mais sonha daqui. Pra não falar que esse negócio de mulher perfeita, mesmo se existisse, seria relativo, o que a mulher perfeita pra mim pode não ser pra você. O Vitor gosta de morena e eu de loira, e pronto, já fodeu todo o conceito.” “Eu sei que é relativo, inclusive eu já comecei a fazer uma lista de tudo que ela precisa ter”. “Bixo, é uma mulher, não um carro”. O Rafael, que até então tinha mantido a cabeça baixa e a boca fechada, interrompeu o Pedro e falou “Se é isso que você quer mesmo, eu te ajudo”. “Pronto, dois loucos, e você Vitor, compactua com essa putaria?” “Eu namoro com a Isabel, num tenho moral pra falar nada”.
sábado, 13 de dezembro de 2008
De onde veio a expressão “piegas”?
Eu conheci a Isabel logo depois que eu, relutantemente, terminei a faculdade. Nunca trabalhei com economia, graças ao Rafael e ao fato de que, sendo ciência, a faculdade de economia não requer estagio para a graduação. O Rafael é formado em publicidade e propaganda e trabalhava numa agência de propagandas pequena, do pai dele. Depois que eu me formei eu fiquei meio sem rumo e o Rafa me chamou pra fazer um bico na agência. Eu não queria trabalhar com economia mesmo, então eu aceitei. No fundo ele só ofereceu por amizade, ele nem precisava de nada de mim e eu acabei ficando como um faz tudo com um belo diploma de economista de uma bela instituição de ensino. Nessa eu acabei acompanhando o Rafael na apresentação de uma campanha pra empresa na qual a Isabel trabalha. Foi a primeira vez que eu a vi. Numa sala de reunião, com um terninho e maquiagem séria no rosto. Imponente. Conforme a produção da campanha foi indo, com pequenas modificações aqui e ali, eu acabei conversando mais com ela. Pegando telefone e essas coisas, teoricamente pra agilizar essas coisinhas que faltavam. Olhando pra trás, agora, eu percebo como a coisa foi burocrática no começo. Na época parecia tão mais romântico. Todo o jogo parecia mais interessante, com as insinuações no ar e os telefonemas e se mostrar mais e menos interessado e todo esse tipo de coisa que acontece no começo. Tudo parecia mais interessante quando a gente conversava sobre isso na cama, antes de dormir. No fim das contas, a gente acabou saindo uma noite e nos beijamos na pista de dança de um lugar que tocava música eletrônica e qualquer outra coisa que estivesse na moda aquele mês. Eu lembro que eu estava falando no ouvido dela e nossas bochechas começaram a se acariciar meio que sozinhas. Como se fosse pra acontecer. E ela me abraçou e eu parei de falar. E a coisa ficou assim pelo que pareceu uma eternidade pra mim. Ela me abraçando e nossas bochechas se tocando e eventualmente eu abraçando ela. E enfim o beijo. Natural e espantoso. Eu não lembro a musica que estava tocando porque eu não estava ouvindo nada. Meio aquela coisa clássica do tempo parar e só existir os dois naquele momento e tudo mais. Piegas. Eu sei. E daí?
Eu consegui, eventualmente, um emprego decente na agência. Redator. Ganho pouco e trabalho pra cacete. Mas pelo menos não preciso mais buscar café pra ninguém. Não é grande coisa, mas é melhor que ficar o dia inteiro preocupado com o preço de alguma commoditie ou ficar movendo curvas de oferta e demanda imaginárias, ou ainda passar minha vida virando um mestre nas movimentações das curvas IS-LM. Eu sei, para os economistas que me lêem, que as coisas não são só assim. Mas elas são assim também. E eu gosto de imaginar que elas são só assim. Fica parecendo que eu joguei cinco anos da minha vida fora, mas não que eu joguei cinco anos e mais um monte de dinheiro que eu podia ter ganhado a mais. Fica parecendo que eu troquei esses cinco anos (que poderiam ter sido quatro, admito) e essa grana por felicidade. Aí fica sendo uma troca justa. E eu fico achando que, pelo menos, eu to trabalhando com uma “versão beta” do que eu queria realmente fazer. Mas a verdade é que eu não conseguiria passar fome por um tempo pra ser escritor. Não tenho culhão. Talvez um dia, com algum empurrãozinho. Quem sabe?
Eu consegui, eventualmente, um emprego decente na agência. Redator. Ganho pouco e trabalho pra cacete. Mas pelo menos não preciso mais buscar café pra ninguém. Não é grande coisa, mas é melhor que ficar o dia inteiro preocupado com o preço de alguma commoditie ou ficar movendo curvas de oferta e demanda imaginárias, ou ainda passar minha vida virando um mestre nas movimentações das curvas IS-LM. Eu sei, para os economistas que me lêem, que as coisas não são só assim. Mas elas são assim também. E eu gosto de imaginar que elas são só assim. Fica parecendo que eu joguei cinco anos da minha vida fora, mas não que eu joguei cinco anos e mais um monte de dinheiro que eu podia ter ganhado a mais. Fica parecendo que eu troquei esses cinco anos (que poderiam ter sido quatro, admito) e essa grana por felicidade. Aí fica sendo uma troca justa. E eu fico achando que, pelo menos, eu to trabalhando com uma “versão beta” do que eu queria realmente fazer. Mas a verdade é que eu não conseguiria passar fome por um tempo pra ser escritor. Não tenho culhão. Talvez um dia, com algum empurrãozinho. Quem sabe?
sexta-feira, 5 de dezembro de 2008
Pausa para lamentação 2
Se você olhar direito vai ver que a fumaça do cigarro é azul, e não importa que todo mundo argumente que é cinza, a fumaça do meu cigarro sempre foi azul. E sempre encheu minha vida, mesmo antes de eu fumar. Porque a metáfora sempre esteve lá, quer eu quisesse ou não. E agora, olhando pra fumaça azul saindo do cigarro apoiado sobre a mesma mesa que a tela do meu computador, e para minha janela aberta, com o vento frio entrando e as luzes da maior cidade do meu país – a cidade que eu sempre idolatrei e eu sempre vou idolatrar – até parece que eu entendo minha vida e o que me trouxe aqui. Mas na verdade não. Essa resposta não está soprando no vento frio que entra pela minha janela. Vento esse que já foi personagem de tantos poemas ruins e sonhos que deixaram de ser sonhos apenas para cair no esquecimento, como o verde de uma maça madura, quem sabe podre. Eu lembro de abrir a janela do meu quarto em Goiânia, onde eu morava, e sentir o vento frio bater no meu rosto, e respirar fundo pra sentir o cheiro da noite, o sabor da noite. E eu sonhava em como estaria sendo minha noite se eu tivesse saído de casa – eu era moleque e minha mãe nem sempre deixava – cheia de surpresas e embriagues. Eu demorei um pouco ainda pra desmistificar a noite, e não sei ainda se valeu a pena. Mas é assim que as coisas são. Um dia tudo há de ser desmistificado. Até a morte. E eu realmente não sei se isso tudo vale a pena.
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