terça-feira, 13 de agosto de 2013

D de defeito

Eu começo coisas e não termino. Eu deixo todas minhas responsabilidades para depois. Eu provavelmente tenho só 16 anos de idade mental. Eu engano as pessoas sem querer. Digo isso porque eu sempre acabo decepcionando e não pode ser sempre culpa das pessoas. Mas eu juro que é sem querer. Eu não controlo muito bem minhas emoções. Eu não sei o que eu quero em nenhuma área da minha vida. Eu não consigo parar de beber depois que eu começo. Eu durmo tarde e acordo mais tarde ainda. Eu me importo muito pouco com a minha saúde. Por exemplo, eu fumo. Eu não ganho dinheiro. Eu nem sei como diabos eu vou fazer para ganhar dinheiro. Eu acho as coisas erradas e faço pouco ou nada para mudar elas. Eu vejo todas essas coisas erradas em mim mesmo e não faço nada para mudar. Eu devo ter vários defeitos dos quais eu nem me toquei. E ainda assim, eu tenho a cara-de-pau de pedir para você me amar mesmo sem poder te oferecer o mesmo amor de volta.


Te prometer isso seria te enganar de propósito.

domingo, 4 de agosto de 2013

Para a próxima saída, aguardar no acostamento.

O que eu posso fazer para você se enxergar do jeito que eu vejo você? Por mais que eu diga, minhas palavras parecem não importar. Talvez porque a minha opinião não importe. É, esse “talvez” foi generoso. Não importa mesmo. Se minha opinião importasse, você, agora, não estaria tão insegura. Agora, você estaria se sentindo a mulher mais bonita do planeta Terra. O maior exemplo de perfeição que essa pequena bola azul no meio da via láctea já produziu.

Mas não se sinta culpada. Eu já estive aonde você está e a apreciação de quem você não quer simplesmente não vale. Não que seja ruim. É só um beijo na testa do seu pai. Um abraço daquele seu primo bonitinho. É só uma história legal que você não vai ter para quem contar.

Mas chegue mais perto, deixa eu te contar um segredo: as pessoas que gostam de ti podem ter mais para oferecer do que você imagina. Natural que você nunca descubra isso. Ninguém descobre. Nós todos deixamos essas pessoas de lado. Quem quer fazer parte de um clube que nos aceita como sócio? Não existe saída, meu amor. A noite é feita de dor. O vento frio da noite é só o suspiro de tristeza das pessoas que desistem dos seus sonhos. E eu não quero que você desista dos seus sonhos. Vai, corre atrás. Eles merecem pelo menos isso. É o mínimo. Prometo que a partir de agora eu faço o mesmo. Ou vou tentar fazer.

É claro que jogo tudo pro alto se você realmente se tocar da verdade antes que eu. Aliás, tenho que ser sincero, se você se tocar eu vou simplesmente deixar essa lição para outra hora. Tem coisas que você só precisa aprender quando você precisa de fato aprender elas, afinal. Ia ser ótimo perder a necessidade. Ia ser ótimo que você fizesse a necessidade sumir. Por enquanto. Sempre por enquanto. Por enquanto o enquanto tiver encanto.


Fica o verso ruim. Fica o sentimento de impotência. Fica o beijo na testa de um pai. O abraço do primo. A história que você só vai lembrar na cama quando nada mais tiver acontecido no dia. Fica a falta de coragem de forçar o que nós dois poderíamos querer. Fica a vontade de que você crie os culhões para isso. Por favor, crie os culhões para isso. Vai? Por favor?

quinta-feira, 25 de julho de 2013

Me vê um de carne e um de pizza


É, desculpa, mas eu nunca tinha imaginado isso. Não assim, não com você. Aliás, desculpa de novo, nunca com você. Não que tenha algo errado, imagina. É que simplesmente nunca tinha cruzado minha mente. Mas aí, falando em cruzamento,  você veio e foi como uma batida na rebouças com a faria lima as 18h. Nada mais conseguiu acontecer. Tudo parou, apesar das buzinas. Apesar do sol que fazia e só servia para deixar todo mundo que não tem ar condicionado no carro um pouco mais bravo. Mas, assim como o cruzamento não poderia fazer nada, e não tem culpa de nada fora de estar ali, eu também não posso fazer nada.

Outra coisa. Parece que toda vez que eu me esforço um pouco para ser um pouco mais doce, um pouco mais “fofo”, é você quem fica mais irresistível. Um fenômeno que, não estivesse acontecendo comigo, eu conseguiria explicar facilmente. Mas as razões me escapam quando sou eu quem passa pela coisa. Nem tudo é literatura. Nem tudo faz sentido. Mas quem disse que precisava fazer, né? (ah, o clichê!)


Pela décima vez eu me agarro à música que você escolheu que ficou largada, ainda escolhida, na minha playlist. Hey, Lloyd, I’m ready to be heartbroken. O pior? Eu comecei com meu mantra tocado pelo she wants revenge: I don’t wanna fall in love. Porque eu não quero. Mas me incomoda que me parece que quando eu começo a me repetir isso, normalmente, já é tarde demais. Vamos fingir que ainda não é. Eu e você, juntos. Vamos falar que não é bem assim. Que ninguém nunca está realmente pronto para ter seu coração despedaçado, mesmo sendo essa a única decisão a ser feita. Que ninguém aqui sente nada. Vamos fingir que estamos tão vazios quanto um pastel barato na feira. Daqueles que deixam um olhar de decepção depois da primeira mordida. Com sorte, as coisas não vão murchar igual esse pastel. E ninguém vai precisar ter seu coração partido.

terça-feira, 2 de julho de 2013

Vida

A vida quer te foder, meu amigo. O problema é que, ao contrário dos caras que talvez te batiam na escola, ela sabe fazer isso. É esperta. Cheia de recursos.

Ela não vai simplesmente fazer você se atrasar para o trabalho. Não. Ela vai fazer você se atrasar para o trabalho no dia daquela reunião importante. Você vai chegar todo nervoso. Estressado. Pronto para entrar e mandar muito bem logo depois que você se desculpar. Aí a reunião vai ter sido adiada. Viu? É assim que ela te pega. Você vai relaxar. Porra, não perdeu a reunião. Ótimo. Talvez até agradeça a vida.

Então você chega na reunião no horário. Normalmente você estaria nervoso com a reunião. Seu corpo ia estar trabalhando aquela adrenalina ali. Mas agora, você se acalmou porque não perdeu a reunião. Infelizmente, durante toda a sua vida você esteve nervoso nessas horas. É assim que você aprendeu. E aí as coisas não dão certo. Você faz um erro aqui e outro ali. Erros que você não faz. A coisa dá merda.

Agora, você não tem a vida para culpar. A vida até te ajudou, lembra? Você tava agradecendo a pequena vadia até pouco tempo. Então você não culpa ela. Você se culpa. E isso faz sua auto-estima cair. Aí, como é sexta-feira, você sai com seus amigos. Depois de umas cervejas, você vê uma mulher linda. Graças ao álcool, você consegue juntar toda a coragem para ir lá falar com ela. Cara, que mulher. Bom gosto, inteligência, beleza. O pacote completo. Mas você, por estar com a auto-estima baixa, acaba passando sinais errados. Acaba vacilando, demorando para falar, deixando de discordar por medo. Ela te acha meio bundão. Você e a vida, no entanto, sabem que ela é perfeita para você.

Nos dias seguintes ela não sai da sua cabeça. Sua experiência te diz o que você tem que fazer. Aquilo que funciona. Mas não funciona agora porque ela te achou meio bundão. Você não consegue avançar do jeito que está acostumado. Isso só piora a situação. Mas você é um cara legal. Ela até vê isso em você. Você, sem saber, tá com uma engrenagem quebrada que não te ajuda. Mas ainda assim as coisas avançam. Vocês combinam uma balada. Casual, leve amigos que ela leva amigas. A ideia é se encontrar lá, não passar a balada juntos. Você até consegue perceber, mas pensa que é a sua chance de arrumar as coisas. Pessoalmente é mais fácil.

E é nessa balada que ela se apaixona pelo seu amigo.

Você, puto, bebe demais. Vai para casa. Acaba acordando meio tarde porque o álcool deixou seu sono mais pesado. Justo no dia daquela sua reunião importante. Você, na verdade, só saiu na noite anterior por causa da mulher. A ideia era ir embora cedo, mas difícil controlar o impulso. O ciúmes daquilo que você não tem, mas quer. Nesse dia, a reunião não é cancelada. Nesse dia, você se fode. E já é seu segundo atraso, lembra?


Agora, sim, meu amigo, você fica puto com a vida. Sem saber que tem um bom tempo que ela já preparava o KY para enfiar no seu cu.

quarta-feira, 19 de junho de 2013

5h

Duas cervejas abertas. Mais 700 ml adicionados à vontade de transar. A música atiça o sexo como uma criança na frente de uma fogueira de São João. Ela senta em cima do balcão. As pernas levemente abertas. A saia delimitando as coxas que constroem o caminho. Ele avança e é recepcionado sendo envolto pelas pernas. As bocas se encontram. O gosto de cerveja e cigarro importaria para pessoas que nunca abandonam seus nojinhos. As bocas se apertam como dois amigos que não se veem há muito tempo. Os seios dela pressionados contra o peito dele fazem ele puxar a cintura dela para mais perto. As mãos seguram quase com medo de deixar escapar. A nuca, a cintura, a bunda. Unhas arranham e roupas são tiradas às pressas. Não existe pressa de terminar, apenas pressa de acabar com interrupções.

Ele se ajoelha. Uma posição condizente com o sentimento de adoração do momento. Sua língua percorreu a buceta antes de se afogar na respiração dela ficando mais forte. O coração forte no peito bombeando suor para fora do corpo. Ela agarra o cabelo dele. Ele sente o calor do movimento das pernas dela. Ela puxa ele para cima e para dentro dela. Eles se beijam por todo o tempo que a respiração ofegante e os gemidos permitem. O cheiro de noite entra para se juntar ao cheiro de sexo da sala. Os perfumes ficam mais fortes graças ao suor. Ela empurra ele, desce do balcão e segue o olhar dele para o quarto. Para no meio do caminho e estica o braço: a cerveja vai junto.

Com um empurrão ele está deitado na cama. Ela sobe, na cama, nele. Cavalga enquanto bebe a cerveja. Geme enquanto dá a cerveja na boca dele. Ele faz menção de se levantar apenas para ser empurrado de volta para a cama. É o show dela. Do jeito que ela quer. O ritmo acelera devagar. Álcool e orgasmo se misturam na agonia da pequena morte. Ela olha para ele e sorri logo antes de desabar na cama.


-Estraga o clima se eu perguntar seu nome?

sexta-feira, 10 de maio de 2013

Aquellos Ojos Verdes


Nat King Cole. Buena Vista Social Club. John Coltrane. Miles Davis. Madrugada. A fumaça do cigarro subindo enquanto eu digito. Sério, por que eu faço isso comigo mesmo? Ah é, por causa de aquellos ojos verdes. Filhos da puta, aqueles olhos verdes. Eles olham para você como uma provocação. Parecem te dizer que você não deveria estar ali na frente deles. E fica fácil de acreditar quando eles vem tão bem acompanhados daquele nariz e daquela boca. A boca, no entanto, é muito mais acolhedora. A boca é um convite. Ainda mais emoldurando aquele sorriso. Ah, fazia tempo que eu não me torturava com uma descrição. Porque, para escrever isso, o rosto dela fica constante na minha frente. E do rosto para frente – ou melhor, para baixo – é só um pequeno passo em falso. E pronto, lá está. Aquela silhueta deitada na minha cama. Devidamente envolta nos meus braços. Não só eu deixei escapar, eu ainda levei em casa. Facilitei a partida. Uma tentativa de facilitar a partida da minha mente, talvez? Se foi isso, péssima jogada. Não adiantou nem um pouco. Agora, além dos meus olhos terem perdido os olhos dela, meus braços terem perdido a cintura e minha boca perdido a pele, meus ouvidos sentem falta da voz. Das palavras. Das dicas para que com algumas palavras eu conseguisse fazer aquela boca novamente emoldurar aquele sorriso. Então só me resta sentir o gosto da falta dela na ponta da minha língua enquanto o fundo da garganta aproveita o gosto da fumaça. Se você acha que a ignorância é uma benção, irmão, você nunca conheceu uma mulher que valesse a pena ter conhecido.

domingo, 21 de abril de 2013

O último capítulo sempre é o mais difícil


O lugar chamava Beco. Beco 203. Originalmente porque o lugar ficava em Porto Alegre. Acho que em um beco. No número 203. Em São Paulo era o número 609. 203 vezes 3. Fazia sentido estar lá. Como, de uma maneira engraçada, tudo do Rio Grande do Sul sempre fez sentido para mim. Desde o colegial com as bandas de rock independente e a atitude rock n´ roll.
Ok, talvez eu que não tenha crescido. Mas o que importa é que eu estava lá. Vulnerável. Talvez mais vulnerável que nunca. Não foi culpa dela, ela não sabia. Mas ela era tudo que minha vulnerabilidade pedia. Um padrão. Uma desculpa. Ela era o metro original. Tipo a distância do dedão até o nariz do rei que criou o metro. Tudo que eu esperava de alguém. Ela era tudo que eu esperava que alguém fosse.
Naturalmente isso não apareceu à primeira vista. Me nego a acreditar em amor a primeira vista. Uma babaquice sem tamanho. Mesmo para um cara imaginativo como eu. Um cara que se apaixona pela ideia. Um cara que se apaixona pelo potencial mais que pelo fato. Porque o fato sempre está além do que você pode conseguir em pouco tempo. O fato está no relacionamento. Na vivência. E ainda assim, eu me conheço bem o suficiente para saber que até a minha vivência muda depois de um tempo. Então porque a de qualquer outra pessoa não mudaria? Ainda assim, é gostoso se enganar.
Ela estava com pessoas. Amigas e amigos. Bem, eu descobri que eram só amigos depois, mas a percepção na primeira hora sempre é pessimista. Eu não vou falar com ela. Se eu perder a chance, não era para ser. Destino. Sorte. A gente tem que se segurar em alguma coisa.
Eu também estava com alguns amigos. Um deles não era exatamente o melhor wingman de todos os tempos. O exato oposto, inclusive. Ir com ele até lá me garantiria uma rejeição por contexto. Explico: uma rejeição por contexto é quando as amigas levam a mulher embora. Você não tomou um fora dela. Você tomou um fora do ambiente. Pode até ser um pedido de socorro dela. O que não conta. E normalmente é identificável. Nem que seja no olhar de desespero da mulher.
A noite continuou. Ela deu o telefone para alguém. Estava sozinha. “Oi”. A conversa seguiu natural. Confortável. Tão confortável que eu falei muito mais do que devia. Segredos que eu não conto fácil. Segredos que alguns dos meus melhores amigos não sabem. Coisas que não estão nem nesse livro. Intimidades reservadas a situações especiais. Vergonhosas e libertadoras.
“Esse é meu telefone mesmo, pode ligar para ver.” Não era necessário. A manhã tinha chegado e com ela o fim do meu tempo com a Daniela. “Sabe? Eu terminei com o meu namorado faz pouco tempo.” Eu também, ela ficou sabendo. Mas meu relacionamento terminou melhor terminado. Espero que isso faça sentido.
Depois disso as conversas reforçaram minhas percepções. Inteligente, legal. Eu poderia passar o dia fazendo elogios, mas não ia levar a nada. Não levaram a nada. Mentira, nós fomos para o mesmo lugar uma vez. Não chegou a ser um encontro. Ela foi com amigas. Eu arrastei um amigo. Mal falei com ela. Duas frases. Parecia que ela fugia de mim. Quase que com medo. Para um cara tímido como eu, isso garantiu uma dor de consciência sem tamanho. Que resultou em uma mensagem pelo facebook. Uma mensagem que seria agressiva não fosse minha incapacidade de esquecer a existência dela. Talvez fosse melhor assim.
Os meses passaram. A existência dela me incomodava. Não no mal sentido. No melhor sentido possível. Era bom sentir aquele incômodo. Sentir a vida, as possibilidades. Parece pouco. Mas me fez sentir como se eu estivesse anestesiado fazia anos. Vacinado contra impulsividades. Isso tinha um valor incalculável. Era quase novo. Mesmo depois de tudo isso. De todas elas.
Mas, se até casamentos esfriam, uma relação quase sem nenhum contato não tinha a menor esperança. Era como se eu estivesse na China. Melhor, como se ela estivesse na China. Eu continuava em São Paulo. O que importa é que na mesma cidade que eu haviam várias mulheres. Mais do que nunca. Elas me mantiveram ocupado. São. Mas por mais que meu interesse secundário sempre mudasse, pulasse de uma mulher para outra, ela era meu metro original. Todas eram medidas em relação a ela. Daniela.
Fica fácil ver porque nenhuma chegava onde a Daniela tinha chegado. A Daniela era uma ideia, mais que uma mulher. E ideias são perfeitas. Não tem como competir. Isso me ajudou muito. A promessa de que ela de fato ia atravessar o Atlântico para estudar, ainda mais. “Eu namoraria essa mulher. Mas ela vai embora. Melhor assim.”
Ela não foi. Mas continuou sendo apenas uma ideia. Não havia nada que eu pudesse fazer. O sentimento de impotência tão familiar. Sempre tão difícil de lidar. De qualquer maneira, ela não foi ainda. Continua aqui, mas é como se estivesse lá. Longe de mim muito mais do que os 5 ou 10 quilômetros que de fato nos separam durante nossas conversas.
Só me sobram cigarros e cervejas. Álcool e boemia. A tentativa de encontrar outra personificação das minhas ideias. Dos meus desejos. A busca eterna por aquilo que vai me transformar por fim em um homem sério. Mesmo sabendo que essa busca deveria ser dentro de mim. Não dentro de lugares artificialmente esfumaçados. Com músicas escolhidas a dedo para manter uma animação artificial. Onde todos fingem que só querem ser eles mesmos. Mas na falta de opções melhores, quem sabe? Quem sabe?

Da leveza do amor tranquilo

Ela me disse: eu quero a leveza de um amor tranquilo. Amor fácil, meu bem, é para quem tem dificuldade de amar. Para quem encontra no outr...