O deserto do Atacama floresce no Chile e por um segundo eu
me lembro de um deserto que eu conheço melhor. Que também floresce, pelo que
parece. Do mesmo jeito, até. Com flores que se expõe já prevendo a aridez do
futuro próximo. Mas com a certeza de que é melhor estar lá agora do que ser
sempre seco e bege. E quando vier a hora de voltar a ser deserto, a hora de
expor as cicatrizes do chão rachado, ter a confiança de que por mais deserto que
seja, as flores ainda florescem de vez em quando. Como no deserto do Atacama no
Chile.
quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016
domingo, 31 de janeiro de 2016
Correlação e Causalidade
Eu poderia de fato elencar 50 motivos de por
que você. Eu poderia escrever uma tese sobre isso. Apresentar na frente de uma
banca, que ia ficar tão emocionada com a qualidade do trabalho que eles iam me
aprovar magna cum laude – ou qualquer
coisa assim – em meio a abraços emocionados e lágrimas discretas. Eu poderia
fazer um filme com um elenco famoso que ia fazer tudo de graça pela qualidade
do roteiro. Ganhar prêmios em festivais de filme independentes e ser a surpresa
do Oscar.
Eu poderiam mudar para a montanha e ser o
ermitão dos 50 motivos de por que você. E as pessoas iam escalar a montanha
para me ouvir falar. Com a barba chegando na cintura, eu ficaria sentado de
pernas cruzadas pensando em perguntas sem respostas e dando conselhos
tautológicos para testar a sabedoria dos peregrinos que se arriscassem.
E ainda assim, isso não ia mudar nada. Nenhum
dos 50 motivos de por que você envolve a resposta de por que eu. Quantos mais
motivos de por que você, menos motivos existem para que seja eu do outro lado.
No fim, o verdadeiro motivo de por que você,
o único que importa, é por que sou eu do outro lado. E, para mim, parece certo.
Porque parece que tudo que eu sou foi a construção de alguém que consegue
explicar todos os motivos de por que você.
sábado, 21 de novembro de 2015
Game Over
Eu perdi, né? No fundo eu já sabia. Sempre
soube. Fui idiota de achar o contrário. Mas até aí, quem nunca foi idiota. Quem nunca se entregou
a uma promessa vazia. Mesmo sabendo da imensidão do vácuo da promessa. Só
porque ela soava tão bonita no começo. Só porque ela teria sido tão bonita se
tivesse se realizado.
Os comunistas todos sofreram disso. Os
anarquistas. O próprio Adam Smith. Sério, lê o cara. Um filho da puta utópico
como todos nós. Sonhadores se fodem. Porque acreditam nos sonhos, contra todas
as probabilidades. E essa coisa de lutar... pura bobagem. Puro nonsense. Um
nonsense lindo, é verdade. Lindo como um sketch do monthy python. Lindo como um
quadro do Dalí. Lindo como um móbile do Calder. Lindo. Inútil. Mas lindo.
E se tantas vezes as pessoas se enganaram,
acreditaram, sofreram, lutaram, quem sou eu para não lutar. Mas todo comunistas
envelhece. Todo anarquista é preso. Todo teórico morre. E a luta fica para
trás. O sonho acaba. A realidade entra dando tapas na cara como um babaca
folgado que acha que é seu amigo suficiente para isso. Entra na sua vida como um
bêbado entra numa roda de amigos na balada. Como um ladrão que quebra o vidro
do seu carro estacionado na rua em um dia de chuva. O café amargo que faz o álcool
dos seus sonhos desaparecer.
segunda-feira, 9 de novembro de 2015
A sorte do clichê tranquilo
- Ai, eu queria a sorte de um amor tranquilo.
Ela disse isso olhando para o alto. Como se
pedindo para alguém além dela. Na mesa, a garrafa de cerveja soltava uma leve
névoa e molhava a madeira. A música era do final dos anos 60. A luz, baixa. O
bar estava meio vazio, com só mais 3 mesas ocupadas.
Na minha cabeça, eu pensava: eu quero bem
mais que isso. Eu quero a angústia de um amor mais forte que eu. Eu quero
perder o emprego, perder o chão. Eu quero encarar o asfalto da beirada do
vigésimo sexto andar. Eu quero dar vexame bêbado no bar. Eu quero dormir de
exaustão depois de rolar na cama desesperado por ela estar vazia. Eu quero que
meus amigos façam uma intervenção. Eu quero me mudar com ela. Eu quero passar
dias com um sorriso bobo na cara enquanto parece que tudo se desmorona em volta
de mim. Porque entre uma citação batida e a insensatez, eu prefiro estar
errado. Entre a maturidade e a dor, eu prefiro ser um Peter Pan solitário.
Entre a sua sobriedade e a minha bobeira, eu prefiro estar para sempre enganado.
Mas eu não falei nada disso. Só ri sem graça
e fui para o próximo assunto vazio que fosse me deixar um pouco mais perto de
ser o seu amor tranquilo daquela noite e a decepção tranquila na manhã
seguinte.
terça-feira, 21 de julho de 2015
Pulp
A janela pisca azul na
parte debaixo da tela do computador, indicando uma mensagem e uma remetente.
Mesmo antes de lida, aquela mensagem não faz sentido, apenas transporta ele
para uma noite três anos antes.
Naquela noite, luzes
piscavam no chão, no teto e nas paredes. Rock ecoava na pista de dança
acolchoada como a cela de um manicômio. Ele encostava na bancada do dj com um
copo de vodka, alguns amigos e muita tontura. Um deles comenta sobre uma garota
que dançava perto deles. "Linda, né?", o amigo fala enquanto tenta
ser discreto. Pela primeira vez ele olha para ela. Bonita, mas não o suficiente
para declarar um "linda" tão empolgado. Tenta ser educado na
resposta, mas parece que a falta de empolgação só deixa o amigo mais animado em
defender a beleza da desconhecida. Só resta a ele fazer seu trabalho de wingman:
o amigo fala com ela, ele fala com o amigo dela. "Escuta, ele sabe que não
tem chance nenhuma com minha amiga, né?".
3 anos depois, era o nome
dela escrito na janela que piscava azul na parte inferior da tela dele. E isso
não fazia o menor sentido. "E aí, Coronel, tudo certo?". O apelido de
Coronel já nem era tão comum. A faculdade tinha acabado. Agora, na agência de
propaganda, o apelido era outro. Aparentemente, agora ele lembrava muito o ator
que interpretou a versão jovem de um ex-presidente.
A mensagem não era tão
bizarra quanto uma voz de uma noite solitária do passado soando no meio de uma manhã
de sexta-feira. O amigo que não tinha chance nenhuma chegou a namorar a menina
que ele achou linda naquela noite. Fora todo o rolo que isso envolveu. Mas, por
pouco mais de um ano, a única vez que eles tinham se visto foi em um bar, no
qual ele mal a reconheceu. Uma mistura de tempo passado, falta de atenção e
mudanças na aparência dela. Naquele momento, ele poderia concordar com o
"linda". Mas estava bêbado e pouco preocupado demais com isso na
hora.
Ia ter o show do Pulp no
dia da mensagem. Por acaso, do lado da agência onde ele trabalhava. Ela
convidou ele para ir. Ele se ofereceu para convidar o amigo em comum,
ex-namorado dela. Afinal, era uma maneira de dar sentido àquela mensagem. O
amigo já namorava uma outra mulher, mas fazia mais sentido do que ela falar com
ele do nada. Conseguiu um ingresso com um colega de trabalho, a quem também
convidou. Até porque precisava não ser a vela da noite que ele imaginava fosse
acontecer. Comprou o ingresso dela. Só o dela, no final o ex-namorado não pode
ir.
Já à noite, ele esperava
ela com o colega em um boteco perto do local do show. Entre copos americanos
cheios de cerveja, fumaça de cigarros e escapamentos se misturavam à palavrões
e piadas. Além do colega que ia com ele, mais um estava lá bebendo uma cerveja
pós-trabalho. Entra ela, flutuando sobre a calçada irregular de um dos metros
quadrados mais caros de São Paulo. Apresentações são feitas já seguidas de
despedidas. O colega que não vai ao show olha para ele com um olhar que diz
"Ela é muito gata, cara. Foda isso. Na hora que você me falou no almoço
que ia pro show com uma amiga eu não imaginei que fosse tão gata. Como que uma
mina assim sai com um cara como você." (Eu poderia estar conjecturando,
mas ele me explicou o olhar com essas exatas palavras depois.)
No show, ela paga o
ingresso para ele com fichas de bebida enquanto explica que tinha terminado
recentemente com o namorado que veio depois do amigo dele. E que ele estava lá.
O Pulp pergunta "Do you remember the first time?". O ex dela pergunta
se eles podem conversar. Aquela conversa que sempre vira briga. Whatever common
people do. O ex vai embora. O show continua. Álcool, luzes, dança e
reclamações. As luzes se acendem eventualmente. Eles vão embora. O ex ficou com
ciúmes e ele achou a ideia do ex dela com ciúmes do amigo do outro ex dela até
engraçada. Ela deixa ele em casa e ele espera o elevador enquanto pensa "Como
diabos eu não tinha percebido o quanto ela é linda?".
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