Zacarias chegou em casa e se perguntou porque insistia em voltar no horário de sempre. Sua esposa, Karen, tinha ido embora já fazia dois anos. Não suportou sua obsessão pelo assassinato da Verônica. Dizia que até a Dona Marta desistira. Na verdade tinha ciúmes. Veja isso, ciúmes de uma mulher morta. Uma menina. Não teria hoje trinta anos.
Zacarias tinha dores de cabeça fortíssimas desde que sua esposa foi embora. O médico não soube dizer porque. O médico não tentou descobrir porque. Cinco minutos de consulta só foi suficiente para prescrever remédios de dor. Mas ele sabia que era da obsessão. Que a dor vinha porque ele não tinha a resposta.
Naquele dia ele tinha sido obrigado a fechar o caso da Verônica. Perdia, finalmente, sua chance de se tornar herói. A imprensa fez todo o circo que pôde em cima do assassinato. Ele acha que isso atrapalhou, mas entende os motivos. Entende a indignação. Hoje, o circo midíatico parece para ele a única redenção que a menina recebeu. Pelo menos as pessoas acharam errado, entende?
Zacarias estava cansado. Há meses pensava em se matar. Hoje achou que não tinha outra escolha. Foi para casa pensando no que ia escrever no bilhete. Não tinha de quem se despedir, mas achou que era importante um bilhete de despedida. Pensou em Karen. Podia mandar uma carta, mas não queria que ela ficasse se remoendo de culpa em cima de um pedaço de papel. Na verdade, queria, mas achou que ia ser uma atitude egoísta.
Sentou-se em uma cadeira de balanço de madeira. Em frente a janela, ficou sentado até o dia amanhecer. Pensou em tudo que conseguiu. Lembrou sua história, e não conseguiu ver o final feliz dos filmes. Ele gostava de finais felizes. Parecia que todo o sofrimento poderia ser justificado se tudo desse certo no final. Todos os fracassos não importavam se no final alguma coisa desse certo.
A dor na cabeça aumentou, mas ele não viu motivos para tomar o remédio. Logo a dor ia passar. Tinha escrito seu nome em uma das balas. Achou a piada interessante. Usou um esmalte que a Karen deixou. Lembrou-se de um filme que falava que as pessoas que deixam coisas importantes fazem isso porque não querem ir embora. E a Karen gostava de esmaltes.
Arma na boca. Oito da manhã. O telefone toca. Karen. “Te acordei?” “Mais ou menos.” “O Zé me ligou. Falou que fecharam o caso da menina. Você tá bem?” “Volta.” “...” “Volta.” “Volto.”
quinta-feira, 22 de julho de 2010
segunda-feira, 24 de maio de 2010
Xavier
A luz piscando rápida e incessantemente faz com que as pessoas pareçam estar se mexendo devagar. Ela dança como se estivesse sozinha, e pra mim ela está. Completamente sozinha no meio da pista. E com aquela luz ela parece traduzir perfeitamente os movimentos da música. Devagar. Sexy. Pra mim é como se ela não existisse de verdade. Ela é apenas mais uma alucinação causada pelo álcool. Nesse exato segundo não existe ninguém mais bonita que ela no mundo inteiro. As minhas costas se desprendem, com muito custo, da parede do lugar e eu inclino meu corpo pra frente tentando procurar coragem na inércia desse movimento. Mas eu me equilibro pra não cair, e a coragem some. E agora eu estou perdido num mar de pessoas dançantes que esbarram em mim. Eu perdi todas as poses e artifícios no segundo que eu vacilei. Mais dois passos corajosos em direção a ela. Ela olha pra mim. Olha pra mim como se olha um vaso sem flores. É assim que ela me vê. Sempre lá e sempre vazio. Me cumprimenta com um sorriso educado. E eu sinto que não deveria estar ali. Me viro e saio derrotado. Sento em um sofá no canto do lugar. Eu poderia ir embora. Mas não vou. Espero tudo acabar, as luzes se acenderem e o segurança pedir para eu me retirar, A casa tá fechando.
Acordo devagar. Rolo na cama procurando um motivo para me levantar. “É um novo dia” e “as coisas vão ser diferentes” nunca funcionaram pra mim. Mas meus olhos estão abertos. Abro os braços e as pernas. Reúno forças e me levanto mesmo sem motivo, mas só porque não tinha mais motivo pra ficar deitado. Me levanto para ficar de pé, enfim. Caminho pelo meu apartamento vazio e bagunçado. O telefone toca estridente.
Olá, eu estou ligando por causa do currículo que você nos enviou. É o Xavier Ocanha falando, certo? Então, diz aqui que você se formou há dois anos, tem 3 anos de experiência na área, correto? Foi com estágio? Você está disponível agora, não? Seu inglês é fluente, assim como seu espanhol e seu alemão? Ah, o francês também? Por que um poliglota se forma em biblioteconomia? Bem, o emprego é para organização dos arquivos e aplicação do modelo das grandes bibliotecas, sabe? Aquele que é o nome do cara? Então, é esse ai nos volumes que a gente tem aqui, que é mais volume jurídico e histórico mesmo. Você está interessado? A gente pode marcar uma entrevista hoje ainda. Tem como você vir? Fica no Bela Vista mesmo. Três da tarde tá bom? Te vejo aqui.
Entrevista vazia. Normal quando a empresa não tem muita certeza do que quer, ou do que precisa. “Por que um poliglota se forma em biblioteconomia?”. Minha mãe me perguntou isso diversas vezes. Mas ela também nunca entendeu direito o que eu faço. Comecei a trabalhar na organização e na aplicação do sistema Dewey nos volumes do lugar, que era um escritório de advocacia com uma coleção de livros absurdamente grande. Muito desproporcional. O escritório em si tinha umas seis pessoas. Ficava em uma casa no Bela Vista, antiga e grande. Tinha um porão cheio de livros que foram levados para lá por todos os sócios e mais alguns que vieram junto com a compra da casa. Aparentemente, o brinde da compra da casa equivalia a oitenta por cento de toda a coleção, e ninguém sabia exatamente o que tinha lá. Eu entrava no porão todo dia de manhã, levando um lanche para a hora do almoço, e só saia de lá na hora de ir embora. E ninguém me via passar.
Depois de alguns dias nessa rotina, eu cheguei a uma caixa que só continha primeiras edições. Eu não sei como, em um porão úmido e sem a menor preocupação com a preservação dos volumes, eles estavam em tão bom estado. Era como se fosse ouro em uma caixa. Eu pensei mais de dez vezes sobre levar os livros embora. Eles não tinham a menor noção do que tinham ali. Era mais fácil do que tirar doce de criança. Era como comer o doce antes da criança saber que é dela. Eu ia praticamente prestar um serviço público levando essas primeiras edições para mãos que fossem cuidar dela corretamente. Era um dever que eu tinha com a cultura. Mas a culpa me consumia só de pensar no assunto. Naquele dia eu demorei mais que o normal para sair do porão. E quando eu sai, não havia mais ninguém no escritório.
Fui me tocar que era véspera de feriado só depois que eu vi tudo vazio. Testei todas as portas, para ver se alguma estava aberta. E depois comecei a testar as janelas. Achei uma cujo trinco estava quebrado, e não podia ser trancada a cadeado como eram as outras. Foi por ali que eu saí. Fui para casa pensando em como era fácil entrar lá. Ou sair com os volumes em uma ocasião similar. O celular tocou.
Ou, a gente tá aqui num bar perto da sua casa. Happy hour de todo mundo que não vai viajar porque tem que trabalhar na sexta. Passa aqui.
Mais uma vez em direção ao abate cruel da minha auto-estima. Deveriam fazer uma ONG contra a minha mania de socialização. Dá de dez a zero na crueldade do abate de vaquinhas. Se eu fosse um ser social eu não saberia falar cinco línguas fluentemente sem nunca ter saído do país. Aquela vaca não podia ter terminado comigo daquele jeito. Sem aviso prévio, nem nada. Simplesmente “as coisas não estão funcionando”, mais “não é você, sou eu” e a boa e velha “estou numa fase da minha vida na qual não sobra espaço para um relacionamento sério”. Desculpas esfarrapadas. Frases feitas. Deve ter visto algum manual na internet de como terminar sem dar um motivo concreto.
O bar estava mais vazio que o habitual. Muito provável que fosse porque as pessoas estavam indo viajar felizes para cidades a beira-mar. Aonde elas pudessem fritar à milanesa na areia, ao invés de assar lentamente dentro dos ônibus da capital.
Eu fui embora bêbado. Cambaleando e trocando as pernas pela rua, no melhor estilo clássico. As luzes da rua me lembravam filmes noir ruins. Eu esperava a qualquer momento tomar um tiro pelas costas de um sujeito com chapéu e sobretudo. E ele viraria para mim e diria “Jack, eu não posso dizer que não é pessoal, que é apenas negócios. Você não deveria ter se envolvido com a Linda, Jack. Não com a Linda”. E eu sentiria o sangue subir quente pela minha garganta enquanto eu ouvia essas palavras e escorregava pelos braços do meu parceiro na polícia. Tudo isso pensando, sem conseguir falar, que não era a Linda que eu amava, era a Rebecca. E depois a câmera se afastaria, abrindo um plano superior, enquanto um trovão ecoava imediatamente após um relâmpago. E a chuva começava a cair logo antes da tela ficar escura para sempre, e os créditos subirem com um jazz sujo ao fundo.
Eu abri a porta e encontrei um envelope no chão, como se tivesse sido passado por debaixo da porta. Dentro dele um número de telefone. Saquei meu celular e liguei para o número. Uma voz feminina atendeu. Um “alô” tímido, mas com um potencial de ternura imensurável. Falamos por horas. Ela sabia que eu ia ligar. Quem não ligaria? Desligamos quando o sol já estava alto no céu. Ela nunca me falou o nome. Mas me falou para ligar novamente, que iria me encontrar se eu quisesse, mas que ela não explicaria o motivo da carta por baixo da porta a não ser pessoalmente. Eu não teria aceitado isso se eu estivesse sóbrio. Acendi meu cigarro semanal e fumei pensando em como ela seria. Eu tinha todo o feriado pela frente, só não ia viajar por preguiça, ao contrário dos meus amigos condenados ao trabalho.
O corpo dela era como seda na minha pele. Tinha as mãos quentes. Eu sempre tive mãos geladas. Mãos de sushiman. Eu me sentia mal por ainda não saber nada sobre ela, apesar de três dias de esforço. Mas me sentia maravilhosamente bem com a mera presença dela. Ela parou em cima de mim. Me olhando com seus olhos azuis. Ficamos nos olhando pela eternidade mais curta que eu já havia sentido. Ela quebrou o silêncio quando viu que eu demonstrei intenção de começar a falar. “Eu não vou te falar nada. Nós não nos conheceríamos mesmo se falássemos por toda uma vida. Então, ao invés de passarmos a impressão errada um para o outro, não vamos passar impressão nenhuma. Não pense. Se esforce para não pensar sobre isso.”
Não existe “não pensar”. A comunicação e as impressões acontecem independentemente da fala, dos fatos. Pessoas julgam o mundo e classificam as coisas em padrões que fazem sentido para elas. Elas precisam chamar as coisas por algum nome. Mas eu não falei isso para ela. Nós concordamos em inventar nomes um para o outro, apesar de ela saber o meu. Ela sabia muito mais sobre mim. Eu a chamei de Helena. Por ela eu invadiria Tróia, ou compraria uma briga com toda a Grécia. Ela falou que, se fosse para ser grega, preferia ser Ariadne. E começou a me chamar de Teseu. “Sem contar a piada, que é horrível, mas que é fácil” “Que piada?” “Teseu, Tesão...” “Uma coisa eu sei, seu senso de humor não é muito apurado”.
Na segunda-feira eu voltei ao trabalho. Ariadne havia ido embora, prometeu que entraria em contato, que não era para eu procurá-la. Aquele número já havia sido descartado. Eu teria brigado, protestado, mas estava acabado demais por causa do sexo. Concordei, resignado com a situação, apenas para me arrepender depois. Deixei a caixa de primeira edições de lado. Incluiria ela por último na lista. Isso me daria tempo para acariciar minha quebra de moral por mais tempo. Trocar de opinião mais vezes. Além do que, Ariadne não saia da minha cabeça por nada. Eu almoçava naquele porão pensando nela. Eu abria caixas e caixas de livros pensando nela. Eu caminhava lentamente pelas ruas pensando nela. E toda vez que eu abria minha porta, eu esperava por um envelope no chão, com um número dentro.
Meu apartamento tinha apenas três cômodos pequenos. Uma cozinha, uma banheiro e um quarto. Pelo menos essa era a maneira que eu os havia denominado. Você, se preferir, poderia trocar o quarto por sala, sendo o primeiro lugar que se via quando se entrava nele. Tinha uma cama de solteiro e duas cadeiras, sendo que uma delas servia como criado mudo. Na cozinha havia um fogão e uma geladeira. Eu lavava roupa na pia, por falta de um tanquinho. O que não era tão incômodo, e me forçava a lavar a louça sempre que eu acabava de comer, e também a deixar a cozinha organizada. Dois hábitos adquiridos depois de vir para São Paulo. O banheiro possuía as coisas que um banheiro básico devem possuir: chuveiro, privada e pia. Nada mais. Eu havia recentemente colocado um lixinho e parado de usar a própria privada para estes fins. Minhas roupas ficavam penduradas em uma arara no quarto, com os sapatos embaixo e as meias e cuecas em caixas divididas por cores. Meus livros haviam sido todos vendidos para o sebo mais próximo da minha casa durante os dois meses que eu fiquei desempregado graças a demissão causada pelo fato de eu não conseguir sair da cama depois que a vaca foi embora. Pelo menos ela me fez parar de fumar. Não sobrava dinheiro para cigarro. Não parar, mas diminuir drasticamente ao menos.
O sábado chegou. E eu fiquei o dia e a noite inteira em casa esperando contato. Acendi dois cigarros. Eu não tinha fumado tanto desde que a vaca tinha ido. O domingo veio com o mesmo marasmo de sempre. E de repente era segunda. E de novo sexta. E eu andava pelo apartamento sem saber o que fazer. A campainha tocou. Irritante como sempre, mas linda dessa vez. Eu abri a porta. Vestido, com perfume. Eu ficava sempre perfumado para esperar. Era a vaca. Ela entrou pela porta, ignorando minha cara de espanto. Ficou no meio do quarto. Parada, mas continuamente se mexendo. Olhou para mim. “Isso foi um erro, eu vou embora”. E esperou. Esperou para que eu protestasse. Esperou que eu me jogasse de joelhos e negasse o erro. Esperou em vão. A cara de espanto fluiu pelo pequeno apartamento e se tornou a dela. Ela abaixou a cabeça e saiu. Parou na frente e olhou para trás. Não sei se fez menção de voltar. Não segurei a porta aberta para descobrir. Bati forte, como se estivesse batendo nos sentimentos que eu não entendia. Pedindo para que eles fossem embora junto com ela. E eles foram. E só sobrou indignação. Ela, a Ariadne. E eu saí. Bebi cerveja e cachaça. Ouvi samba. Gritei. Fui ridículo. Encontrei amigos e os envergonhei. Me senti vazio, como queria sentir.
Voltei para casa somente para não encontrar nenhum envelope no chão.
No outro dia comprei um caderno. Escrevi várias coisas, nada digno de nota. Escrevi sem me preocupar com línguas, expressando cada conceito, cada palavra, na língua que a fazia soar mais bonita. Um frankenstein linguístico. E conforme a noite se aproximava, eu me cansava de sentir dó de mim mesmo. Liguei para alguns amigos e fui procurar alguma coisa para fazer.
No lugar onde fomos as luzes piscavam e somente nesses momentos quebravam a escuridão. E ele estava cheio de mulheres. E eu conheci uma que me agradou. Era bonita e falava mais do que eu. O que é muito bom quando não se fala muito. E ela me beijou. E quando eu fui buscar uma cerveja, eu vi a Ariadne. Ela nem olhou para mim, mas eu sabia que era ela. Eu fui até ela e falei com ela. Ela fingiu que não me conhecia. Discutimos. Era ela. Tinha que ser ela. Ela falou que se chamava Verônica, não Ariadne. As amigas dela a tiraram de perto de mim. Me fizeram manter distância. A mulher que estava comigo antes viu tudo. Sumiu depois disso. Eu bebi mais. Arranjei uma briga. Voltei para casa com olho roxo para enfrentar o domingo.
Eu gostaria de falar que depois desse episódio eu esqueci a Ariadne. Ou a Verônica. Mas o pensamento só ficou mais forte na minha cabeça. Eu usava todo o meu tempo livre pensando em maneiras de encontra-la. Esperando avistar ela pelas ruas. Os meses se passaram. Eu havia levado as primeiras edições para casa como parte de um plano para encontra-la. Iria contratar um detetive. E precisava de dinheiro para isso. Estava trabalhando no escritório ainda. Estava agora trabalhando com os documentos de casos. Organizando as coisas para que eles achem casos similares com rapidez. Consegui o telefone de um detetive que trabalhava com casos de divórcio. O nome dele era Camilo.
Acordo devagar. Rolo na cama procurando um motivo para me levantar. “É um novo dia” e “as coisas vão ser diferentes” nunca funcionaram pra mim. Mas meus olhos estão abertos. Abro os braços e as pernas. Reúno forças e me levanto mesmo sem motivo, mas só porque não tinha mais motivo pra ficar deitado. Me levanto para ficar de pé, enfim. Caminho pelo meu apartamento vazio e bagunçado. O telefone toca estridente.
Olá, eu estou ligando por causa do currículo que você nos enviou. É o Xavier Ocanha falando, certo? Então, diz aqui que você se formou há dois anos, tem 3 anos de experiência na área, correto? Foi com estágio? Você está disponível agora, não? Seu inglês é fluente, assim como seu espanhol e seu alemão? Ah, o francês também? Por que um poliglota se forma em biblioteconomia? Bem, o emprego é para organização dos arquivos e aplicação do modelo das grandes bibliotecas, sabe? Aquele que é o nome do cara? Então, é esse ai nos volumes que a gente tem aqui, que é mais volume jurídico e histórico mesmo. Você está interessado? A gente pode marcar uma entrevista hoje ainda. Tem como você vir? Fica no Bela Vista mesmo. Três da tarde tá bom? Te vejo aqui.
Entrevista vazia. Normal quando a empresa não tem muita certeza do que quer, ou do que precisa. “Por que um poliglota se forma em biblioteconomia?”. Minha mãe me perguntou isso diversas vezes. Mas ela também nunca entendeu direito o que eu faço. Comecei a trabalhar na organização e na aplicação do sistema Dewey nos volumes do lugar, que era um escritório de advocacia com uma coleção de livros absurdamente grande. Muito desproporcional. O escritório em si tinha umas seis pessoas. Ficava em uma casa no Bela Vista, antiga e grande. Tinha um porão cheio de livros que foram levados para lá por todos os sócios e mais alguns que vieram junto com a compra da casa. Aparentemente, o brinde da compra da casa equivalia a oitenta por cento de toda a coleção, e ninguém sabia exatamente o que tinha lá. Eu entrava no porão todo dia de manhã, levando um lanche para a hora do almoço, e só saia de lá na hora de ir embora. E ninguém me via passar.
Depois de alguns dias nessa rotina, eu cheguei a uma caixa que só continha primeiras edições. Eu não sei como, em um porão úmido e sem a menor preocupação com a preservação dos volumes, eles estavam em tão bom estado. Era como se fosse ouro em uma caixa. Eu pensei mais de dez vezes sobre levar os livros embora. Eles não tinham a menor noção do que tinham ali. Era mais fácil do que tirar doce de criança. Era como comer o doce antes da criança saber que é dela. Eu ia praticamente prestar um serviço público levando essas primeiras edições para mãos que fossem cuidar dela corretamente. Era um dever que eu tinha com a cultura. Mas a culpa me consumia só de pensar no assunto. Naquele dia eu demorei mais que o normal para sair do porão. E quando eu sai, não havia mais ninguém no escritório.
Fui me tocar que era véspera de feriado só depois que eu vi tudo vazio. Testei todas as portas, para ver se alguma estava aberta. E depois comecei a testar as janelas. Achei uma cujo trinco estava quebrado, e não podia ser trancada a cadeado como eram as outras. Foi por ali que eu saí. Fui para casa pensando em como era fácil entrar lá. Ou sair com os volumes em uma ocasião similar. O celular tocou.
Ou, a gente tá aqui num bar perto da sua casa. Happy hour de todo mundo que não vai viajar porque tem que trabalhar na sexta. Passa aqui.
Mais uma vez em direção ao abate cruel da minha auto-estima. Deveriam fazer uma ONG contra a minha mania de socialização. Dá de dez a zero na crueldade do abate de vaquinhas. Se eu fosse um ser social eu não saberia falar cinco línguas fluentemente sem nunca ter saído do país. Aquela vaca não podia ter terminado comigo daquele jeito. Sem aviso prévio, nem nada. Simplesmente “as coisas não estão funcionando”, mais “não é você, sou eu” e a boa e velha “estou numa fase da minha vida na qual não sobra espaço para um relacionamento sério”. Desculpas esfarrapadas. Frases feitas. Deve ter visto algum manual na internet de como terminar sem dar um motivo concreto.
O bar estava mais vazio que o habitual. Muito provável que fosse porque as pessoas estavam indo viajar felizes para cidades a beira-mar. Aonde elas pudessem fritar à milanesa na areia, ao invés de assar lentamente dentro dos ônibus da capital.
Eu fui embora bêbado. Cambaleando e trocando as pernas pela rua, no melhor estilo clássico. As luzes da rua me lembravam filmes noir ruins. Eu esperava a qualquer momento tomar um tiro pelas costas de um sujeito com chapéu e sobretudo. E ele viraria para mim e diria “Jack, eu não posso dizer que não é pessoal, que é apenas negócios. Você não deveria ter se envolvido com a Linda, Jack. Não com a Linda”. E eu sentiria o sangue subir quente pela minha garganta enquanto eu ouvia essas palavras e escorregava pelos braços do meu parceiro na polícia. Tudo isso pensando, sem conseguir falar, que não era a Linda que eu amava, era a Rebecca. E depois a câmera se afastaria, abrindo um plano superior, enquanto um trovão ecoava imediatamente após um relâmpago. E a chuva começava a cair logo antes da tela ficar escura para sempre, e os créditos subirem com um jazz sujo ao fundo.
Eu abri a porta e encontrei um envelope no chão, como se tivesse sido passado por debaixo da porta. Dentro dele um número de telefone. Saquei meu celular e liguei para o número. Uma voz feminina atendeu. Um “alô” tímido, mas com um potencial de ternura imensurável. Falamos por horas. Ela sabia que eu ia ligar. Quem não ligaria? Desligamos quando o sol já estava alto no céu. Ela nunca me falou o nome. Mas me falou para ligar novamente, que iria me encontrar se eu quisesse, mas que ela não explicaria o motivo da carta por baixo da porta a não ser pessoalmente. Eu não teria aceitado isso se eu estivesse sóbrio. Acendi meu cigarro semanal e fumei pensando em como ela seria. Eu tinha todo o feriado pela frente, só não ia viajar por preguiça, ao contrário dos meus amigos condenados ao trabalho.
O corpo dela era como seda na minha pele. Tinha as mãos quentes. Eu sempre tive mãos geladas. Mãos de sushiman. Eu me sentia mal por ainda não saber nada sobre ela, apesar de três dias de esforço. Mas me sentia maravilhosamente bem com a mera presença dela. Ela parou em cima de mim. Me olhando com seus olhos azuis. Ficamos nos olhando pela eternidade mais curta que eu já havia sentido. Ela quebrou o silêncio quando viu que eu demonstrei intenção de começar a falar. “Eu não vou te falar nada. Nós não nos conheceríamos mesmo se falássemos por toda uma vida. Então, ao invés de passarmos a impressão errada um para o outro, não vamos passar impressão nenhuma. Não pense. Se esforce para não pensar sobre isso.”
Não existe “não pensar”. A comunicação e as impressões acontecem independentemente da fala, dos fatos. Pessoas julgam o mundo e classificam as coisas em padrões que fazem sentido para elas. Elas precisam chamar as coisas por algum nome. Mas eu não falei isso para ela. Nós concordamos em inventar nomes um para o outro, apesar de ela saber o meu. Ela sabia muito mais sobre mim. Eu a chamei de Helena. Por ela eu invadiria Tróia, ou compraria uma briga com toda a Grécia. Ela falou que, se fosse para ser grega, preferia ser Ariadne. E começou a me chamar de Teseu. “Sem contar a piada, que é horrível, mas que é fácil” “Que piada?” “Teseu, Tesão...” “Uma coisa eu sei, seu senso de humor não é muito apurado”.
Na segunda-feira eu voltei ao trabalho. Ariadne havia ido embora, prometeu que entraria em contato, que não era para eu procurá-la. Aquele número já havia sido descartado. Eu teria brigado, protestado, mas estava acabado demais por causa do sexo. Concordei, resignado com a situação, apenas para me arrepender depois. Deixei a caixa de primeira edições de lado. Incluiria ela por último na lista. Isso me daria tempo para acariciar minha quebra de moral por mais tempo. Trocar de opinião mais vezes. Além do que, Ariadne não saia da minha cabeça por nada. Eu almoçava naquele porão pensando nela. Eu abria caixas e caixas de livros pensando nela. Eu caminhava lentamente pelas ruas pensando nela. E toda vez que eu abria minha porta, eu esperava por um envelope no chão, com um número dentro.
Meu apartamento tinha apenas três cômodos pequenos. Uma cozinha, uma banheiro e um quarto. Pelo menos essa era a maneira que eu os havia denominado. Você, se preferir, poderia trocar o quarto por sala, sendo o primeiro lugar que se via quando se entrava nele. Tinha uma cama de solteiro e duas cadeiras, sendo que uma delas servia como criado mudo. Na cozinha havia um fogão e uma geladeira. Eu lavava roupa na pia, por falta de um tanquinho. O que não era tão incômodo, e me forçava a lavar a louça sempre que eu acabava de comer, e também a deixar a cozinha organizada. Dois hábitos adquiridos depois de vir para São Paulo. O banheiro possuía as coisas que um banheiro básico devem possuir: chuveiro, privada e pia. Nada mais. Eu havia recentemente colocado um lixinho e parado de usar a própria privada para estes fins. Minhas roupas ficavam penduradas em uma arara no quarto, com os sapatos embaixo e as meias e cuecas em caixas divididas por cores. Meus livros haviam sido todos vendidos para o sebo mais próximo da minha casa durante os dois meses que eu fiquei desempregado graças a demissão causada pelo fato de eu não conseguir sair da cama depois que a vaca foi embora. Pelo menos ela me fez parar de fumar. Não sobrava dinheiro para cigarro. Não parar, mas diminuir drasticamente ao menos.
O sábado chegou. E eu fiquei o dia e a noite inteira em casa esperando contato. Acendi dois cigarros. Eu não tinha fumado tanto desde que a vaca tinha ido. O domingo veio com o mesmo marasmo de sempre. E de repente era segunda. E de novo sexta. E eu andava pelo apartamento sem saber o que fazer. A campainha tocou. Irritante como sempre, mas linda dessa vez. Eu abri a porta. Vestido, com perfume. Eu ficava sempre perfumado para esperar. Era a vaca. Ela entrou pela porta, ignorando minha cara de espanto. Ficou no meio do quarto. Parada, mas continuamente se mexendo. Olhou para mim. “Isso foi um erro, eu vou embora”. E esperou. Esperou para que eu protestasse. Esperou que eu me jogasse de joelhos e negasse o erro. Esperou em vão. A cara de espanto fluiu pelo pequeno apartamento e se tornou a dela. Ela abaixou a cabeça e saiu. Parou na frente e olhou para trás. Não sei se fez menção de voltar. Não segurei a porta aberta para descobrir. Bati forte, como se estivesse batendo nos sentimentos que eu não entendia. Pedindo para que eles fossem embora junto com ela. E eles foram. E só sobrou indignação. Ela, a Ariadne. E eu saí. Bebi cerveja e cachaça. Ouvi samba. Gritei. Fui ridículo. Encontrei amigos e os envergonhei. Me senti vazio, como queria sentir.
Voltei para casa somente para não encontrar nenhum envelope no chão.
No outro dia comprei um caderno. Escrevi várias coisas, nada digno de nota. Escrevi sem me preocupar com línguas, expressando cada conceito, cada palavra, na língua que a fazia soar mais bonita. Um frankenstein linguístico. E conforme a noite se aproximava, eu me cansava de sentir dó de mim mesmo. Liguei para alguns amigos e fui procurar alguma coisa para fazer.
No lugar onde fomos as luzes piscavam e somente nesses momentos quebravam a escuridão. E ele estava cheio de mulheres. E eu conheci uma que me agradou. Era bonita e falava mais do que eu. O que é muito bom quando não se fala muito. E ela me beijou. E quando eu fui buscar uma cerveja, eu vi a Ariadne. Ela nem olhou para mim, mas eu sabia que era ela. Eu fui até ela e falei com ela. Ela fingiu que não me conhecia. Discutimos. Era ela. Tinha que ser ela. Ela falou que se chamava Verônica, não Ariadne. As amigas dela a tiraram de perto de mim. Me fizeram manter distância. A mulher que estava comigo antes viu tudo. Sumiu depois disso. Eu bebi mais. Arranjei uma briga. Voltei para casa com olho roxo para enfrentar o domingo.
Eu gostaria de falar que depois desse episódio eu esqueci a Ariadne. Ou a Verônica. Mas o pensamento só ficou mais forte na minha cabeça. Eu usava todo o meu tempo livre pensando em maneiras de encontra-la. Esperando avistar ela pelas ruas. Os meses se passaram. Eu havia levado as primeiras edições para casa como parte de um plano para encontra-la. Iria contratar um detetive. E precisava de dinheiro para isso. Estava trabalhando no escritório ainda. Estava agora trabalhando com os documentos de casos. Organizando as coisas para que eles achem casos similares com rapidez. Consegui o telefone de um detetive que trabalhava com casos de divórcio. O nome dele era Camilo.
domingo, 23 de maio de 2010
Walter
Walter olhou para o relógio esperando uma resposta que ele naturalmente não conseguiu. Não era na máquina que ele procurava essa resposta, e era apenas isso que o círculo na parede era. Os ponteiros que desciam não o levavam a lugar nenhum. A criança continuava sentada no canto da sala, brincando com um carrinho de metal. Como quatro anos poderiam ter se passado tão rápido? Na verdade, quase cinco.
O menino tinha batido na porta duas horas antes. Estava assustado e carregava um papel. Enquanto ele lia, pensava no quão cliché aquilo era. “Rodrigo, você é um homem difícil de achar. Principalmente porque esse nem é seu nome, né? Você podia ter me falado isso. Eu queria que seu filho tivesse o nome do pai. Mas acho que Rodrigo é tão bom quanto qualquer outro nome. Eu estou cansada e doente. Não posso mais cuidar dele. Eu torço para que você viva mais tempo que eu. Sabrina.” Depois disso ele falou para o menino sentar. Desde então, anda pela casa e olha para o relógio.
Pegou o computador e viu o saldo de sua conta e de suas aplicações. Depois, fez todas as contas para saber quanto o menino iria custar e quanto ele teria de renda sem nunca mais trabalhar. Pela segunda vez direcionou a voz para o menino. “Vem, eu tenho que me livrar de algumas coisas e você não pode ficar sozinho.” O menino levantou, obediente e assustado, e seguiu seu pai até a casa vizinha. “Beatriz, você pode cuidar do meu filho por uma hora?” “Desde quando você tem filho?” “Eu já volto. Você pode cuidar do meu filho?” “Estamos misteriosos?” “Sem gracinhas, e sem perguntas para o menino. Explico depois. Pode?” “Claro. Claro.”
O menino achou a casa feia. E por achar tão feia, seu olhar não parava. A mulher entendeu aquilo como interesse e passou a explicar o significado de tudo. A ligação que todos nós temos com a mãe terra e coisas que pareciam histórias infantis.
Seu pai voltou, mas eles ainda ficaram algum tempo na vizinha. Ele vendo TV, e o pai conversando na cozinha com a mulher. Depois, eles voltaram para casa e o pai perguntou se a mãe dele tinha dito como ele se chamava. O menino respondeu que sim. Então, o pai segurou seu rosto carinhosamente e disse para ele nunca mais chama-lo de Rodrigo. Rodrigo era só o menino. O pai era Walter. A partir de agora, para sempre Walter.
O menino tinha batido na porta duas horas antes. Estava assustado e carregava um papel. Enquanto ele lia, pensava no quão cliché aquilo era. “Rodrigo, você é um homem difícil de achar. Principalmente porque esse nem é seu nome, né? Você podia ter me falado isso. Eu queria que seu filho tivesse o nome do pai. Mas acho que Rodrigo é tão bom quanto qualquer outro nome. Eu estou cansada e doente. Não posso mais cuidar dele. Eu torço para que você viva mais tempo que eu. Sabrina.” Depois disso ele falou para o menino sentar. Desde então, anda pela casa e olha para o relógio.
Pegou o computador e viu o saldo de sua conta e de suas aplicações. Depois, fez todas as contas para saber quanto o menino iria custar e quanto ele teria de renda sem nunca mais trabalhar. Pela segunda vez direcionou a voz para o menino. “Vem, eu tenho que me livrar de algumas coisas e você não pode ficar sozinho.” O menino levantou, obediente e assustado, e seguiu seu pai até a casa vizinha. “Beatriz, você pode cuidar do meu filho por uma hora?” “Desde quando você tem filho?” “Eu já volto. Você pode cuidar do meu filho?” “Estamos misteriosos?” “Sem gracinhas, e sem perguntas para o menino. Explico depois. Pode?” “Claro. Claro.”
O menino achou a casa feia. E por achar tão feia, seu olhar não parava. A mulher entendeu aquilo como interesse e passou a explicar o significado de tudo. A ligação que todos nós temos com a mãe terra e coisas que pareciam histórias infantis.
Seu pai voltou, mas eles ainda ficaram algum tempo na vizinha. Ele vendo TV, e o pai conversando na cozinha com a mulher. Depois, eles voltaram para casa e o pai perguntou se a mãe dele tinha dito como ele se chamava. O menino respondeu que sim. Então, o pai segurou seu rosto carinhosamente e disse para ele nunca mais chama-lo de Rodrigo. Rodrigo era só o menino. O pai era Walter. A partir de agora, para sempre Walter.
domingo, 7 de março de 2010
Verônica
Verônica não gostava de ser menina. Tinha que ficar limpa, educada, sorridente e simpática o tempo todo, e um pouco mais quando tinha visita. Enquanto isso, os meninos podiam se sujar, correr e se machucar à vontade. Até tomavam bronca depois, mas era isso que se esperava deles. Ninguém espera de um menino o comportamento que era esperado dela. E, quando um dos meninos se comportava bem, os outros meninos, e mesmo outros pais, achavam estranho. Mas nunca os pais da criança. Ficavam inconformados com toda a barbárie, quando até a própria Verônica sabia que eram simplesmente crianças.
Verônica cresceu e perdeu parte da vontade de ser menino. Sempre teve mais amigos do que amigas, mas gostava de não ser um deles. A atenção especial de ser diferente agradava a menina. E ela aprendeu rápido a usar essa atenção a seu favor. Uma atitude que sua mãe odiava. Seu pai, no entanto, encorajou enquanto esteve presente. Dizia que todos os talentos devem ser explorados, desenvolvidos. Nunca se sabe quando vamos precisa de um deles, não é, filha? Um infarto fulminante interrompeu os conselhos do pai quando ela ainda tinha 15 anos. Seu ódio pela mãe, ainda menos presente que o pai, cresceu, e quando ela tinha 20 anos, já não se falavam completamente.
A mãe de Verônica também não gostava de ser menina. Não pelos mesmos motivos que ela, mas pelo que significava ser menina na época em que havia crescido. Hoje, ela adorava ser menina, principalmente do jeito dela. Dava um sabor especial em todas as conquistas da vida, por menores que fossem. Acabou dando uma amargura especial quando a filha desapareceu depois de diversas brigas. E o mundo quase ruiu quando foi identificada a ossada dentro de um carro queimado não-identificado.
Verônica gostava de brincar. Muitas vezes, brincava mais do que devia. Vivia num mundo verde e fantasioso, onde podia tudo. O dinheiro comprava sua inocência e sua pureza. Cresceu livre e amoral. Forte e insana.
Verônica cresceu e perdeu parte da vontade de ser menino. Sempre teve mais amigos do que amigas, mas gostava de não ser um deles. A atenção especial de ser diferente agradava a menina. E ela aprendeu rápido a usar essa atenção a seu favor. Uma atitude que sua mãe odiava. Seu pai, no entanto, encorajou enquanto esteve presente. Dizia que todos os talentos devem ser explorados, desenvolvidos. Nunca se sabe quando vamos precisa de um deles, não é, filha? Um infarto fulminante interrompeu os conselhos do pai quando ela ainda tinha 15 anos. Seu ódio pela mãe, ainda menos presente que o pai, cresceu, e quando ela tinha 20 anos, já não se falavam completamente.
A mãe de Verônica também não gostava de ser menina. Não pelos mesmos motivos que ela, mas pelo que significava ser menina na época em que havia crescido. Hoje, ela adorava ser menina, principalmente do jeito dela. Dava um sabor especial em todas as conquistas da vida, por menores que fossem. Acabou dando uma amargura especial quando a filha desapareceu depois de diversas brigas. E o mundo quase ruiu quando foi identificada a ossada dentro de um carro queimado não-identificado.
Verônica gostava de brincar. Muitas vezes, brincava mais do que devia. Vivia num mundo verde e fantasioso, onde podia tudo. O dinheiro comprava sua inocência e sua pureza. Cresceu livre e amoral. Forte e insana.
segunda-feira, 17 de agosto de 2009
Varanda NovAmérica
Sumido, mas tem bom motivo. Propaganda minha:
O Guilherme Almeida assina o roteiro comigo. Ou eu assino com ele. Alguem sabe se tem diferença?
O Guilherme Almeida assina o roteiro comigo. Ou eu assino com ele. Alguem sabe se tem diferença?
sábado, 18 de julho de 2009
Ulisses
Eu não venho de uma família importante. Na verdade, acho que ninguém da minha família nas últimas gerações saiu do anonimato. Nenhum herói. Pelo menos não no sentido de se tornar conhecido pelos seus atos, ou de mudar o pensamento das pessoas. Eu, obviamente, sempre tive meus heróis. Aquelas pessoas que eu admirava e tomava como padrão de comportamento. E eles foram aos poucos morrendo e perdendo lugar na minha cabeça. Hoje, eu não os tenho. Pelo menos não daqueles que você quer copiar. Eu tenho pessoas que eu admiro, mas me falta um herói de verdade. Inabalável. Inteligente. Uma pessoa que possa ser admirada. Alguém que eu acredite que faria as escolhas certas se estivesse no meu lugar. Porque eu preciso acreditar que alguem faria. Porque eu tenho certeza que eu não as faço. Nem vou conseguir fazer. Eu não quero assumir responsabilidade pelos meus atos. Eu quero ser o centro do mundo. E eu não posso fazer isso me sentindo culpado pelo fato de que se eu não fizer a coisa certa, ninguém vai fazer. Eu odeio essa culpa. Eu quero ser expiado dessa culpa. E aonde está meu herói? Jogado em algum emprego ruim? Ignorado porque o seu trabalho não condizia com o que era padrão e ele não quis se vender? Meu herói nunca vai aparecer. E de que me importa um herói anônimo? Como eu vou expiar minha culpa pelas ações de alguém que eu não conheço? Que se fodam os heróis anônimos desse mundo. Esses inúteis que encaram a realidade sem as armas pra isso. Só me sobram atos heróicos de pessoas comum. E esses só me afundam mais na minha culpa. Mundo de merda. Piada sem graça.
segunda-feira, 13 de julho de 2009
Tamires
Colaboração externa, no caso, da Amanda, minha namorada.
Tamires
Ela acaba de puxar a meia 7/8 (sete oitavos) devagar, mas sem cuidado ou atenção. Acostumou-se a sentir o elástico apertando a perna, dividindo um pouco a carne. Passou de novo o batom escuro - os lábios haviam perdido a cor para o copo - e logo puxou um e outro olho, esticando para contorná-los. Envolveu-se em preto, apertou as amarras que lhe destacavam a cintura, e subiu em seus sapatos de verniz. Como de costume.
Foi com sua expressão cliché blasé, que tanto se esforçara para representar e hoje surgia naturalmente (não pelo treino, mas involuntariamente). Estava ficando velha para aquilo. A perspectiva de dançar todo dia na balada e ainda ganhar dinheiro por isso deixou de ser seu mundo ideal havia algum tempo.
Subiu no balcão e começou a dançar como fazia há 8 anos, talvez com menos paixão, mas com uma sensualidade reproduzida no ritmo com precisão. Não se lembra de quando deixou de se sentir em um desenho dos anos 30, daqueles em tons sépia que têm alguns quadros faltando e rodam dando "pulinhos", onde as pessoas têm grandes cílios e belas pernas. O filme ficou devagar, saiu do rolo e a tela ficou branca. Foi-se o glamour, o "wanna be", a ânsia de ser aquela personagem, e ficou a dependência dos olhos vidrados de tesão,o admiração e álcool. Vício em um mar convulsivo de indivíduos quase inertes que olhavam para cima e viam nela uma deusa. De sentir olhos percorrendo a linha branca de seu calcanhar até o fim da coxa. Fechou o casaco e saiu pela porta dos fundos. So restavam lá dentro os que não tiveram consciência das luzes acesas e as vassouras dançantes.
Andou sozinha em paralelepípedos pretos e úmidos, apertando os braços. Chegou em seu apartamento e deitou-se no sofá. Acendeu um cigarro. Estava com ressaca de tantos cigarros que fumou sem encostar. Continuou com ele aceso. Abriu o casaco, e virou os quadris lentamente para um lado e depois para o outro, olhando seu corpo serpentear. Assim queria ser vista. Ou não. Fechou o casaco com um movimento brusco. Levantou-se e foi pegar uma bebida ambarada na cozinha. Encostou, pé na parede, olhar atravessando o chão, uma mão na cintura servindo de apoio ao cotovelo, a unha do dedão presa entre dentes e o cigarro ao lado dos olhos distantes. Foda-se como me vêem... bostas. Dizem estar sujeitos ao que o corpo manda, sem voz, sem voto, sem consciência. "é necessidade..." "eu não queria...". Áh, vá. Vão todos pra grande puta gorda que pariu, nunca serviram de nada e nem vão servir.
O que largou ela com fitinhas no cabelo e promessas de arco-íris, o que fez ela acreditar que era diferente, o que fez ela sentir a primeira dor fora do peito, o que 'não queria' ter magoado ela, o que a pôs em um pedestal e se deleitou com as plebéias, o que lhe deu o primeiro tabefe/murro, o que lhe deu o último, o que sumiu do mapa, o que se apaixonou pela melhor amiga, o que se esqueceu dela por duas mais novas, o que lhe roubou por um pico, os que lhe deram rugas, cicatrizes, marcas, pesos, e esse olhar cansado.
'Fodam-se todos eles. Não foi falta de amostragem, homem é estatisticamente um bixo fraco de merda. O que importa é o fim, não o começo. Claro que cada um é diferente de início. Inteligente, adorável, irresistível, quente, boêmio, poeta, músico, estiloso, cheiroso, bom filho, bom irmão, bom amante e quem sabe bom marido, cada um com seus predicados, que vão dar na mesma merda. Rimel espalhado pelo rosto e remédio pra dormir.'
Colocou o copo vazio na pia saia da cozinha quando o telefone tocou.
Tá. to precisando de você. (Esse aí também não presta. Mas esse fardo não é meu)
Fala Fábio...
Contou a ela de alguma merda que tinha feito com alguma dondoca que namorava. De novo.
'Ele se liga numa coroa... Édipo mal resolvido. Ou complexo de bon vivant. Preguiça de pegar no batente, falta de figura paterna. Taí uma coisa para a qual os homens podem prestar: evitar que existam mais merdinhas no mundo, dando um exemplo decente (mesmo que falso). Eu sou mais a minha mãe. Deus me livre ser como ela... Mas tenho que dar o crédito. Ninguem levantou um puto dedo pra ajudar ela. Nem eu. E ela fez tudo sozinha. Nunca precisou de ninguém. Homem que aparecia era só atraso de vida, por isso não se envolveu com nenhum. Minha mãe é a virgem maria. No fim meu irmão cresceu estragado... mas é a vida.'
Ele se despediu, e ela acordou de seu devaneio psicanalítico de programa de bafão. Foi tomar banho, limpou a alma, deitou de roupão para ver alguma coisa leve na TV, mas não tirou o preto dos olhos. Pra ficar bem claro quem ela tinha se tornado, e não esquecer que não dava pra voltar.
Tamires
Ela acaba de puxar a meia 7/8 (sete oitavos) devagar, mas sem cuidado ou atenção. Acostumou-se a sentir o elástico apertando a perna, dividindo um pouco a carne. Passou de novo o batom escuro - os lábios haviam perdido a cor para o copo - e logo puxou um e outro olho, esticando para contorná-los. Envolveu-se em preto, apertou as amarras que lhe destacavam a cintura, e subiu em seus sapatos de verniz. Como de costume.
Foi com sua expressão cliché blasé, que tanto se esforçara para representar e hoje surgia naturalmente (não pelo treino, mas involuntariamente). Estava ficando velha para aquilo. A perspectiva de dançar todo dia na balada e ainda ganhar dinheiro por isso deixou de ser seu mundo ideal havia algum tempo.
Subiu no balcão e começou a dançar como fazia há 8 anos, talvez com menos paixão, mas com uma sensualidade reproduzida no ritmo com precisão. Não se lembra de quando deixou de se sentir em um desenho dos anos 30, daqueles em tons sépia que têm alguns quadros faltando e rodam dando "pulinhos", onde as pessoas têm grandes cílios e belas pernas. O filme ficou devagar, saiu do rolo e a tela ficou branca. Foi-se o glamour, o "wanna be", a ânsia de ser aquela personagem, e ficou a dependência dos olhos vidrados de tesão,o admiração e álcool. Vício em um mar convulsivo de indivíduos quase inertes que olhavam para cima e viam nela uma deusa. De sentir olhos percorrendo a linha branca de seu calcanhar até o fim da coxa. Fechou o casaco e saiu pela porta dos fundos. So restavam lá dentro os que não tiveram consciência das luzes acesas e as vassouras dançantes.
Andou sozinha em paralelepípedos pretos e úmidos, apertando os braços. Chegou em seu apartamento e deitou-se no sofá. Acendeu um cigarro. Estava com ressaca de tantos cigarros que fumou sem encostar. Continuou com ele aceso. Abriu o casaco, e virou os quadris lentamente para um lado e depois para o outro, olhando seu corpo serpentear. Assim queria ser vista. Ou não. Fechou o casaco com um movimento brusco. Levantou-se e foi pegar uma bebida ambarada na cozinha. Encostou, pé na parede, olhar atravessando o chão, uma mão na cintura servindo de apoio ao cotovelo, a unha do dedão presa entre dentes e o cigarro ao lado dos olhos distantes. Foda-se como me vêem... bostas. Dizem estar sujeitos ao que o corpo manda, sem voz, sem voto, sem consciência. "é necessidade..." "eu não queria...". Áh, vá. Vão todos pra grande puta gorda que pariu, nunca serviram de nada e nem vão servir.
O que largou ela com fitinhas no cabelo e promessas de arco-íris, o que fez ela acreditar que era diferente, o que fez ela sentir a primeira dor fora do peito, o que 'não queria' ter magoado ela, o que a pôs em um pedestal e se deleitou com as plebéias, o que lhe deu o primeiro tabefe/murro, o que lhe deu o último, o que sumiu do mapa, o que se apaixonou pela melhor amiga, o que se esqueceu dela por duas mais novas, o que lhe roubou por um pico, os que lhe deram rugas, cicatrizes, marcas, pesos, e esse olhar cansado.
'Fodam-se todos eles. Não foi falta de amostragem, homem é estatisticamente um bixo fraco de merda. O que importa é o fim, não o começo. Claro que cada um é diferente de início. Inteligente, adorável, irresistível, quente, boêmio, poeta, músico, estiloso, cheiroso, bom filho, bom irmão, bom amante e quem sabe bom marido, cada um com seus predicados, que vão dar na mesma merda. Rimel espalhado pelo rosto e remédio pra dormir.'
Colocou o copo vazio na pia saia da cozinha quando o telefone tocou.
Tá. to precisando de você. (Esse aí também não presta. Mas esse fardo não é meu)
Fala Fábio...
Contou a ela de alguma merda que tinha feito com alguma dondoca que namorava. De novo.
'Ele se liga numa coroa... Édipo mal resolvido. Ou complexo de bon vivant. Preguiça de pegar no batente, falta de figura paterna. Taí uma coisa para a qual os homens podem prestar: evitar que existam mais merdinhas no mundo, dando um exemplo decente (mesmo que falso). Eu sou mais a minha mãe. Deus me livre ser como ela... Mas tenho que dar o crédito. Ninguem levantou um puto dedo pra ajudar ela. Nem eu. E ela fez tudo sozinha. Nunca precisou de ninguém. Homem que aparecia era só atraso de vida, por isso não se envolveu com nenhum. Minha mãe é a virgem maria. No fim meu irmão cresceu estragado... mas é a vida.'
Ele se despediu, e ela acordou de seu devaneio psicanalítico de programa de bafão. Foi tomar banho, limpou a alma, deitou de roupão para ver alguma coisa leve na TV, mas não tirou o preto dos olhos. Pra ficar bem claro quem ela tinha se tornado, e não esquecer que não dava pra voltar.
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